A jornada da cientista Júlia Leão, uma jovem inovadora do interior do Rio Grande do Sul, é um testemunho da capacidade de transformar curiosidade infantil em soluções de impacto global. Aos dez anos, em Santa Cruz do Sul, sua introdução à palavra “ciência” através de um livro sobre automedicação e uso irracional de fármacos despertou uma paixão que moldaria sua trajetória profissional de maneira singular.
O ambiente escolar que fomentava a participação em feiras científicas serviu como berço para as primeiras incursões de Júlia no universo da pesquisa. Campanhas de coleta de medicamentos vencidos, panfletos informativos elaborados à mão e a orientação sobre o descarte correto revelaram uma pesquisadora nata, mesmo antes de compreender plenamente o significado de sua vocação. “Eu já era uma pesquisadora sem saber exatamente o que era isso”, compartilha ela, reminiscente daqueles primeiros passos.
Este engajamento precoce foi decisivo para sua escolha acadêmica. Júlia ingressou no curso de Farmácia da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) como bolsista integral, demonstrando desde o início um compromisso inabalável com a pesquisa. No segundo semestre, sua entrada voluntária em um grupo que investigava a genética da bactéria causadora da tuberculose em presídios gaúchos, mapeando sua transmissão, marcou seu primeiro contato com a pesquisa laboratorial, um ambiente que, em suas palavras, ela “adorava”.
Sua sede por conhecimento a levou a transitar por diversas áreas. Participou de um projeto inovador que explorava o uso de microalgas no tratamento de resíduos de esgoto contaminados por agrotóxicos, visando a remoção de contaminantes e a mitigação do impacto ambiental do descarte industrial. Contudo, foi durante um estágio em uma farmácia de manipulação veterinária que Júlia identificou uma lacuna crítica que viria a definir o escopo de sua carreira.
No cotidiano da farmácia veterinária, a cientista observou de perto as limitações dos fármacos disponíveis para animais. A escassez de medicamentos desenvolvidos especificamente para espécies diversas levava à adaptação de formulações humanas, muitas vezes inadequadas. Comprimidos precisavam ser fracionados ou triturados para ajustes de dose, resultando em tratamentos ineficazes ou rejeitados por cães e gatos devido ao sabor amargo, evidenciando uma falha estrutural da indústria farmacêutica, focada na produção em larga escala e com pouca flexibilidade para atender às especificidades da medicina veterinária.
Diante desse cenário, Júlia percebeu o vasto potencial para o desenvolvimento de soluções personalizadas. “Foi onde eu me encontrei”, afirma, refletindo sobre a descoberta de sua missão. Após a graduação, a ausência de iniciativas voltadas a essa problemática gerou apreensão, mas também um impulso para buscar o caminho. Essa busca a levou ao mestrado em Ciências Farmacêuticas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre.
Na capital gaúcha, Júlia integrou o grupo Nano3D, liderado pelo farmacêutico Ruy Beck, onde teve contato com uma tecnologia ainda incipiente no Brasil: a impressão 3D para a produção de medicamentos. O princípio é engenhoso: utilizando uma formulação em gel contendo o princípio ativo, a impressora 3D deposita o material camada por camada, construindo a unidade final do medicamento. A dose, formato e tamanho são definidos digitalmente, oferecendo uma flexibilidade sem precedentes na personalização.
Essa abordagem representa um avanço significativo, superando uma das principais limitações da indústria farmacêutica tradicional, que exige novas linhas de produção para cada variação de dose. Com a impressão 3D, alterações podem ser realizadas digitalmente e em tempo real, permitindo a criação de fármacos com formatos, tamanhos e texturas adaptadas, facilitando a administração para pacientes com necessidades especiais – sejam eles animais, crianças, idosos ou pessoas com dificuldade de deglutição.
Levando a pesquisa além dos limites do laboratório, Júlia e seus colegas fundaram a Formula3D, uma deeptech dedicada à aplicação da impressão 3D na produção de medicamentos personalizados. Em uma parceria pioneira com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, a tecnologia está sendo implementada dentro da própria estrutura hospitalar, com o objetivo de produzir medicamentos no local, sob medida para as necessidades individuais de cada paciente. Atualmente em fase piloto, este projeto representa a primeira iniciativa do tipo na América Latina, buscando validar a tecnologia em um contexto prático antes de sua expansão comercial.
Júlia Leão ressalta que a transição de pesquisas acadêmicas para aplicações práticas ainda é um desafio no Brasil, onde “a maior parte das nossas pesquisas acaba na publicação”. O processo exige superação de etapas como validação técnica, captação de financiamento e adaptação aos complexos sistemas de saúde. Além disso, a cientista enfrenta barreiras como o machismo. “Já vivi muitas situações de não acreditarem ou descredibilizarem por ser mulher e pesquisadora”, relata, expondo a resistência por parte de avaliadores e potenciais compradores, frequentemente homens mais velhos.
Apesar dos obstáculos, o trabalho inovador de Júlia Leão conquistou reconhecimento internacional. Ela foi uma das laureadas na 6ª edição do programa “25 Mulheres na Ciência”, promovido pela 3M. A iniciativa, que em 2024 teve como tema “Mulheres na Manufatura”, destacou pesquisadoras que aplicam ciência, tecnologia, engenharia e matemática para impulsionar a inovação industrial na América Latina, selecionando dez brasileiras. Para Júlia, o prêmio não é apenas uma honraria, mas uma ferramenta vital para “ajudar nessa missão de popularizar o conhecimento sobre essa tecnologia”.
A visão de Júlia é clara: a ciência deve transcender os artigos acadêmicos e se materializar em soluções concretas que beneficiem a sociedade. “A pesquisa é um ponto de partida para o mundo real. É preciso pensar sempre além”, conclui, personificando o espírito da inovação que busca transformar a medicina e o cuidado com a saúde por meio da tecnologia e da personalização.
Fonte: [CURIOSIDADES] SUPER INTERESSANTE