O agronegócio brasileiro, um dos pilares da economia nacional, confronta-se com um paradoxo crescente: o Código Florestal, em sua atual formulação, permite o desmatamento legal em diferentes biomas, porém, essa mesma atividade é um vetor significativo na emissão de gases de efeito estufa, acelerando o aquecimento global. Tal fenômeno, conforme dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), sob a direção-executiva de André Guimarães, projeta perdas alarmantes para culturas essenciais: um aumento de apenas um grau Celsius na temperatura pode resultar na queda de 6% da produtividade da soja e 8% do milho. Diante desse cenário desafiador, emerge a questão fundamental: seria factível conciliar alta produtividade agrícola com uma política rigorosa de desmatamento zero? Um exemplo promissor foi destacado em reportagem recente do Globo Rural, evidenciando uma fazenda no Matopiba que aponta para um caminho viável.
A região do Matopiba, que engloba porções dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é atualmente o epicentro do desmatamento no Cerrado. Este bioma, reconhecido por sua vasta biodiversidade e papel crucial no equilíbrio climático e na manutenção dos recursos hídricos do Brasil, tem sido o mais impactado pela expansão da fronteira agropecuária e pela abertura de novas áreas de cultivo, conforme monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A pressão sobre o Cerrado é uma preocupação ambiental premente, que demanda soluções inovadoras e sustentáveis para garantir a produção de alimentos sem comprometer a integridade ecológica do país.
No município de Loreto, Maranhão, uma propriedade rural que cultiva soja e milho demonstra que a sustentabilidade e a lucratividade podem andar de mãos dadas. Esta fazenda mantém intacta uma reserva ambiental equivalente a 35% de sua área total, superando os limites legalmente exigidos, e o mais notável: não registra nenhum desmatamento desde 2012. Além da preservação, a fazenda adota um robusto sistema de monitoramento de seus quase 3.000 hectares de mata nativa. A engenheira florestal e gerente de meio ambiente, Sabrina Campos, enfatiza a importância desse acompanhamento: “Nós sabemos que é uma região aonde ainda, infelizmente, existem muitos incêndios criminosos e sempre a gente precisa monitorar a composição florística dessa floresta. A gente precisa saber como ela está hoje para que, se futuramente ela for degradada pelo fogo, a gente (possa) chegar nesse nível (novamente).” Esse compromisso com a conservação e a resiliência ambiental posiciona a fazenda como um modelo.
O esforço contínuo de preservação, ao longo de mais de uma década, culminou na obtenção da certificação internacional Round Table on Responsible Soy (RTRS). Este selo de reconhecimento global atesta que a produção de soja e milho da fazenda segue rigorosos padrões de sustentabilidade. A premissa fundamental para a concessão da certificação RTRS é o desmatamento zero na propriedade desde 2016, mas a avaliação vai muito além, englobando mais de 150 indicadores que abrangem desde a gestão ambiental até as condições sociais e trabalhistas. Auditores independentes realizam vistorias anuais, inspecionando pontos cruciais como a segurança contra incêndios (extintores), a adequação das instalações (refeitório) e o armazenamento correto de agrotóxicos. A Fundação de Apoio à Pesquisa do Corredor de Exportação Norte (Fapcen) aponta que cerca de 50% da produção maranhense já ostenta este prestigioso selo.
Os benefícios de possuir a certificação RTRS são multifacetados e tangíveis. Além de agregar valor de mercado aos produtos, o selo confere ao produtor acesso a um crédito RTRS que varia entre US$ 1 a US$ 3 por tonelada de soja ou milho certificado. Adicionalmente, fazendas certificadas usufruem de taxas reduzidas em linhas de financiamento e condições diferenciadas na aquisição de maquinário agrícola, incentivando a modernização e a sustentabilidade. André Guimarães, do Ipam, reforça a necessidade de estímulos: “Tem milhões de hectares que podem legalmente ser desmatados e que o serão porque é um direito do produtor. Agora, se a sociedade entende que aquele recurso deve ser preservado, de alguma maneira, ela precisa de incentivar o produtor.” Esse incentivo, segundo especialistas, é crucial para a transição para um modelo agrícola mais verde.
Apesar do reconhecimento da importância da sustentabilidade, o Brasil ainda enfrenta lacunas em suas políticas públicas. O Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), instituído por lei em 2021, que visa recompensar financeiramente proprietários rurais pela conservação ambiental, ainda não foi plenamente aplicado. João Paulo Copobianco, secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, resume a situação: “Falta regulamentação. É necessário um decreto regulamentador que estabeleça as condições de como isso deve ser processado.” A efetivação do PSA é vista como um mecanismo vital para estimular a adesão de mais produtores às práticas de desmatamento zero e à conservação do capital natural, alinhando-se aos debates e compromissos que serão abordados na COP30, em Belém, sobre financiamento climático e um agro mais sustentável.
Fonte: [NOTICIAS] GLOBO RURAL