[VÍDEO] KNOWER: C6 Fest, Virtuosismo e DNA Musical

A banda KNOWER, liderada pela dupla Louis Cole e Genevieve Artadi, desafia as convenções do cenário musical contemporâneo. Com uma sonoridade que conjuga a complexidade matemática do jazz, a energia explosiva de raves e um coração punk, o duo aterrissa no Brasil para o C6 Fest, trazendo consigo uma abordagem singular que os distingue no panorama global.

Longe das tradicionais vitrines de ego artísticas, a identidade visual do KNOWER é um manifesto de deboche e irreverência. Com fantasias de baixo orçamento e edições de vídeo que remetem à era da internet discada, eles demonstram que o virtuosismo musical não se restringe a trajes formais, podendo manifestar-se sob a forma de um vendedor de tacos, por exemplo. Essa postura é um contraponto direto à indústria, provando que a aura de “cool” muitas vezes esconde uma simplicidade nos bastidores.

A chegada do KNOWER ao Brasil para o C6 Fest não é apenas um evento musical; é um encontro cultural. A dupla expressa uma reverência genuína por ícones da música brasileira como Milton Nascimento e Toninho Horta, reconhecendo no país um dos últimos refúgios onde a música complexa ainda encontra ressonância e acolhimento do público. Em uma conversa exclusiva com o TMDQA!, Louis e Genevieve abordaram temas que variam do existencial ao apocalíptico, desmistificando a aura de ícones do jazz e projetando cenários inusitados para o fim do mundo.

Questionado sobre como equilibra a precisão técnica de um baterista de jazz com a energia caótica de um show punk no palco do C6 Fest, Louis Cole ressaltou sua simplicidade na abordagem. “Eu só estou tentando tocar bateria o melhor que posso. Espero que isso se traduza em uma boa experiência para o público e que eles sintam que o dinheiro do ingresso valeu a pena!”, afirmou, enfatizando a busca por uma performance autêntica e recompensadora para a audiência.

Genevieve Artadi, por sua vez, discorreu sobre sua habilidade de dobrar sintetizadores e metais com sua voz, alcançando uma precisão quase robótica. Em um festival que valoriza sons “orgânicos”, ela se vê como uma “tradutora de sons sintéticos para o corpo humano”. “Eu amo dobrar instrumentos com a minha voz. Em vez de focar se um som é produzido organicamente ou se vem de um sintetizador, eu tento criar combinações interessantes de sons para que, quando se unam, tenham uma qualidade legal”, explicou Genevieve, que também se autodenomina “vendedora de tacos”, adicionando um toque de humor à sua identidade.

A transição da energia íntima e quase claustrofóbica do icônico “Living Room Power Set” de 2020 para um palco sofisticado e ao ar livre como o do C6 Fest foi outro ponto abordado. Louis Cole brincou sobre a adaptação: “Nós vamos nos espalhar mais e nenhum de nós estará com COVID – ou, se algum de nós estiver doente, prometemos não fazer o teste. Também teremos mais músicos conosco do que naquele vídeo (naquele ‘Covídeo’)”, demonstrando o humor característico da banda.

A identidade visual subversiva do KNOWER, que frequentemente utiliza fantasias engraçadas e edição de vídeo lo-fi, é um contraste marcante com a postura séria esperada de músicos virtuosos formados por instituições renomadas como a USC e CSU. Louis Cole defende a autenticidade: “Eu sou apenas um cara normal como você e eu. Qualquer músico que se apresenta como ‘cool’ demais, ou misterioso demais, ou simplesmente sexy demais para o seu nível de realidade, geralmente é um baita de um bobo nos bastidores”, desmistificando a imagem de perfeição que muitas vezes cerca os artistas.

A lista de músicos adicionais que já tocaram com o KNOWER, incluindo nomes como MonoNeon, Sam Gendel e Cory Wong, sugere a formação de um verdadeiro “supergrupo rotativo”. Sobre o “DNA” essencial para integrar a banda, Louis foi claro: “Ser bom no seu instrumento e estar interessado em aprender e tocar a música bem. Eles também precisam ser pessoas legais para se passar o tempo junto”, priorizando tanto a competência técnica quanto a harmonia interpessoal.

O reconhecimento de figuras como Quincy Jones e a inclusão em plataformas diversas, como a rádio FlyLo FM do GTA V, demonstram a amplitude do alcance do KNOWER. Louis Cole comentou a validação de mundos tão distintos, afirmando que “Quincy Jones era meio esquisito”, mas reconhecendo que “ter a validação desses caras ajudou algumas pessoas a formarem opiniões positivas sobre nós. Sou grato por isso, quero que o máximo de pessoas possível ouça minha música”, destacando o desejo de expansão e reconhecimento.

Com o EP mais recente intitulado “Some Thingies” (2025), a ideia de uma coleção de conceitos espontâneos é evidente. Louis expressou sua admiração pela música brasileira, citando Tom Jobim, Milton Nascimento e Toninho Horta como influências. “O Brasil tem uma história de música excelente e uma apreciação em massa por música de qualidade (coisa que provavelmente não existe mais em lugar nenhum)”, pontuou, evidenciando o impacto duradouro desses artistas em sua formação musical.

Em uma reflexão sobre a sonoridade que o KNOWER traz para o C6 Fest, Louis a descreveu metaforicamente como “Um cone cinza. Visualize-o”. Ao final da entrevista, questionado sobre qual música tocaria se o mundo estivesse acabando a 128 BPM, Cole escolheu “Crash The Car”, explicando: “Com certeza, enquanto uma erupção solar de classe X-100 explode através da magnetosfera quase inexistente da Terra. Essa música vai combinar melhor com a aurora boreal diurna”, revelando uma visão poética e um tanto apocalíptica.

Para a pergunta final do TMDQA! sobre ter “mais discos do que amigos”, Louis confessou: “Isso é verdade para mim! Mas eu gosto tanto dos meus discos quanto dos meus amigos. Eu escolheria meu próprio álbum, Nothing, para me descrever. Esse é o meu álbum favorito”, encerrando a conversa com uma nota pessoal e introspectiva que sintetiza a complexidade e a autenticidade do KNOWER.

Fonte: MÚSICA – Mais Disco Que Amigos

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