Um movimento significativo e crescente no cenário musical brasileiro aponta para um novo e promissor momento para o reggae no país. Artistas de grande projeção no universo pop nacional, como Iza, Anitta e Marina Sena, têm incorporado sonoridades e influências jamaicanas em suas produções, sinalizando uma tendência de valorização do gênero. Músicas como “Caos e sal / Tão bonito” de Iza, “Deus existe” de Anitta em parceria com Ponto de Equilíbrio, e “Combo da Sorte” de Marina Sena, são exemplos claros dessa convergência estilística que reacende o interesse público pelo reggae.
Ainda que dados recentes de um estudo inédito da Globo em parceria com a Quaest posicionem o reggae como um dos últimos na preferência musical dos brasileiros, superando apenas o pop internacional, a atuação dessas estrelas pop sugere uma reversão. A presença da influência jamaicana na música brasileira não é novidade, mas a simultaneidade com que diversos artistas populares se voltam para o reggae em suas criações indica uma onda cultural. Além dos nomes já citados, MC Cabelinho lançou a faixa “Rastafari” em 2025, e canções do projeto “Dominguinho”, como “Ligação estranha” e “Dois Mundos”, reforçam essa inclinação.
A cantora Iza, que expressou seu entusiasmo com essa efervescência em entrevista ao g1, planeja inclusive um álbum totalmente dedicado ao gênero, ressaltando a percepção de que o reggae, em suas diversas vertentes, está em evidência. Guilherme Guedes, jornalista e apresentador do Multishow, corrobora essa visão, analisando o caráter cíclico da música e a influência profunda da cultura jamaicana na música brasileira, evidente em fenômenos como os paredões e em gêneros da música eletrônica contemporânea.
Juliana Beydoun, produtora executiva da renomada banda Tribo de Jah, que celebra 40 anos de carreira, vê com otimismo o flerte entre o pop e o reggae. Para ela, essa interação demonstra a contínua força e relevância do reggae na música brasileira, alcançando novas gerações e públicos diversificados. Beydoun enfatiza a importância de uma nova geração de artistas dentro do reggae e o diálogo com outras sonoridades, reforçando a vitalidade do gênero e a fidelidade de seu público.
Apesar do entusiasmo, o caminho para o mainstream ainda apresenta desafios. A ausência de nomes do reggae no anúncio inicial da Virada Cultural 2026, que gerou protestos de fãs, ilustra a luta por maior visibilidade. Embora a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa tenha posteriormente confirmado a presença de artistas como Mato Seco, Quinta Rasta, Radiola Reggae e Manu Chao na programação completa, o episódio revela a paixão e a demanda do público. Guilherme Guedes aponta que, talvez, a consolidação deste bom momento necessite de um hit que marque a geração, assim como ocorreu nos anos 90 com Edson Gomes, Cidade Negra e Natiruts, ou artistas com forte influência reggae como O Rappa.
Atualmente, o reggae ainda busca espaço nos rankings de rádio e plataformas digitais, dominados por sertanejo e funk. Um exemplo é a faixa “Tudo vai dar certo”, do Natiruts, que figurava apenas na 134ª posição, mesmo com a banda lotando estádios em sua turnê de despedida entre 2024 e 2025. Contudo, essa ausência do mainstream não diminui a força intrínseca do reggae, que, nas palavras de Bob Marley, “não é twist”, focando mais na mensagem de paz, amor, liberdade e justiça social do que na dança.
A massificação, entretanto, pode vir acompanhada da perda de essência, como alerta Guilherme Guedes, citando o exemplo do Nirvana e Kurt Cobain. Quando um gênero se massifica, ele corre o risco de se tornar meramente uma estética, distanciando-se de suas raízes e propósito original. Mesmo assim, a fase atual beneficia nomes já consolidados que mantêm essa essência. A participação de Edson Gomes no Lollapalooza 2026, embora com público modesto devido à concorrência, gerou grande repercussão e abriu os olhos para um intercâmbio há muito esperado.
O sucesso da turnê de despedida do Natiruts, “Leve com você”, que teve a demanda tão alta a ponto de estender datas, e a transformação de “Sorri, sou rei” em uma versão MTG pelo DJ Topo em 2026, são provas tangíveis do interesse renovado. A Tribo de Jah também experimentou um crescimento na demanda por shows, expandindo sua presença para além dos festivais de reggae, alcançando grandes festas populares como Carnaval e São João, o que demonstra que o gênero superou a categorização de sazonal ou de nicho.
A banda Maneva, que celebra 20 anos de carreira com a turnê “Tudo vira reggae” – um projeto que converte músicas de diversos gêneros para o ritmo jamaicano –, também exemplifica essa conectividade. Iniciado como uma live durante a pandemia, o projeto se tornou um álbum de grande repercussão, e seu título, “Tudo vira reggae”, talvez batize metaforicamente esta nova era de valorização e fusão do reggae com a música brasileira contemporânea.
Fonte: Cultura e Arte – G1