Além do visível rastro de milhares de mortes e da infraestrutura destruída, os mais de dois anos de ataques israelenses na Faixa de Gaza deixaram uma sequela psicológica profunda e silenciosa na população infantil. Inúmeras crianças palestinas, traumatizadas pela violência contínua, perderam a capacidade de falar, um reflexo do profundo impacto emocional e psicológico do conflito.
De acordo com dados alarmantes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), aproximadamente 1 milhão de menores de idade no território palestino necessitam urgentemente de apoio psicológico. A exposição ininterrupta à violência e ao terror da guerra resultou em um aumento exponencial dos diagnósticos de mutismo infantil, uma condição que, embora possa ter causas físicas, manifesta-se predominantemente como um reflexo do trauma psicológico.
Embora em alguns casos o silêncio possa ser atribuído a fatores físicos, como lesões na cabeça ou danos neurológicos provocados pelo impacto de explosões, a maioria das ocorrências de perda de fala em crianças não apresenta ferimentos visíveis. O trauma psicológico avassalador de perder familiares, amigos e o próprio lar revela-se suficiente para paralisar a função da fala, evidenciando uma resposta neurobiológica à sobrevivência.
A psicóloga Amanda Amude explicou este fenômeno: “O que acontece não é uma escolha, não é um processo racional, é um processo automático e a gente pode entender isso com a neurobiologia da sobrevivência. Nesse momento, funções mais elaboradas do cérebro ficam em standby, e a linguagem é uma dessas funções”. Esta análise sublinha a gravidade da situação, onde o cérebro das crianças prioriza a sobrevivência em detrimento de funções cognitivas complexas.
Especialistas e correspondentes internacionais alertam para um desafio que transcende a reconstrução física de edifícios e hospitais. Há uma geração inteira de crianças em Gaza sendo psicologicamente devastada. Atualmente, o sistema de saúde mental no território encontra-se em completo colapso, sugerindo que o processo de recuperação para estas crianças será longo e árduo.
Para que estas crianças recuperem a fala e superem o trauma, será fundamental um esforço prolongado de acolhimento e suporte. “Isso pode ser restabelecido não com o final da guerra, não com pressão, mas com acolhimento. Com tempo, e com a sensação de segurança e previsibilidade, esse cérebro vai voltar a funcionar como funcionava antes disso tudo acontecer”, concluiu Amude, ressaltando a importância de um ambiente seguro e estável para a recuperação.
Os números da guerra em Gaza ilustram a dimensão da tragédia humanitária e a extensão da devastação. Em resposta aos ataques terroristas do Hamas em 2023, que vitimaram 1,2 mil judeus, os bombardeios israelenses resultaram na morte de 73 mil palestinos na Faixa de Gaza, dos quais mais de 20 mil eram crianças. Mesmo com um cessar-fogo nominal em vigor, ataques pontuais persistem, impedindo que a população local experimente uma verdadeira sensação de segurança e paz.
Fonte: BAND JORNALISMO