O universo do samba está em luto com a partida de Oswaldo Alves Pereira (1932 – 2026), mundialmente conhecido como Noca da Portela. O renomado cantor e compositor mineiro faleceu neste domingo, 17 de maio de 2026, no Rio de Janeiro (RJ), aos 93 anos, em decorrência de pneumonia e outras complicações após internação hospitalar para tratamento de infecção urinária. Sua morte encerra uma trajetória vitoriosa e profundamente engajada na música brasileira.
Nascido em Leopoldina (MG) e residente no Rio de Janeiro desde os cinco anos de idade, Noca da Portela foi uma figura central no cenário do samba, notabilizando-se não apenas pela sua prolífica obra, mas também pelo seu posicionamento político. Em 1981, no auge da abertura política brasileira, Noca compôs, em parceria com Gilson Pereira (Gilper), o samba “Virada”. A canção, engajada na luta pela redemocratização do país, ganhou o Brasil na voz da também politizada Beth Carvalho (1946 – 2019), tornando-se um hino daquele período.
Com um repertório que ultrapassa 500 sambas, Noca da Portela deixou marcas indeléveis na cultura nacional. Entre seus sucessos, destacam-se “É preciso muito amor” (1979), em parceria com Tião de Miracema, lançada por Chico da Silva e regravada por nomes como Zeca Pagodinho e Dudu Nobre. Outro clássico é “Caciqueando” (1983), eternizado igualmente na voz de Beth Carvalho, consolidando sua parceria e afinidade artística com a “Madrinha do Samba”.
A ligação de Noca com a Portela era tão profunda que se tornou seu sobrenome artístico. Levado à tradicional escola de samba do Carnaval carioca por Paulinho da Viola em 1966, Noca venceu sete disputas de samba-enredo da agremiação azul e branca. Sambas de sua autoria embalaram desfiles memoráveis, como “Recordar é viver” (1985), “Gosto que me enrosco” (1995) e “Os olhos da noite” (1998). Seu amor pela escola foi imortalizado no samba “Portela querida” (1967), parceria com Colombo e Picolino, com quem formava o trio ABC da Portela, e que se tornou um dos hinos informais da agremiação.
Além de sua profunda conexão com a Portela e com blocos cariocas como Simpatia é Quase Amor, Noca também teve seu nome associado à Paraíso do Tuiuti. Sua obra foi gravada por grandes intérpretes do samba, como Alcione, que em 1982 registrou “Vendaval da vida” (parceria com Delcio Carvalho), e Paulinho da Viola, que interpretou “Peregrino” (1996), samba de Noca com Toninho Nascimento. Noca ainda colaborou com Martinho da Vila em sambas como “Nem a lua” (1978) e o contemporâneo “Vidas negras importam” (2021).
Como cantor, Noca da Portela construiu uma discografia solo significativa, incluindo álbuns como “Mãos dadas” (1980), “Samba verdadeiro” (1998) e seu derradeiro “Homenagens” (2016). Estes trabalhos são testemunhos de uma obra engajada, onde o “bamba militante” Noca da Portela utilizou a força do samba para defender, de forma inabalável, os ideais de democracia e justiça social, deixando um legado inestimável para a cultura brasileira.
Fonte: Cultura e Arte – G1