Almodóvar Se Desafia: Novo Filme Divide Opiniões!

Pedro Almodóvar, o renomado cineasta espanhol de 76 anos, retorna à sua língua nativa e ao cenário espanhol com seu 24º longa-metragem, ‘Natal Amargo’. Após dois anos do lançamento de ‘O Quarto ao Lado’, falado em inglês, o diretor inverte a câmera para si mesmo, entregando uma obra que reflete sobre o fazer artístico, os limites da criação e, em uma inflexão autobiográfica, coloca suas próprias memórias e carreira em xeque. O filme, que estreou internacionalmente na seleção oficial do 79º Festival de Cannes na última terça-feira, tem lançamento previsto nos cinemas brasileiros para 28 de maio.

‘Natal Amargo’ desvenda a história de dois cineastas obcecados pelo trabalho: Elsa, interpretada por Bárbara Lennie, uma diretora que, sem o sucesso esperado nas telas, se dedicou ao mercado publicitário e lida com o luto, enxaquecas e conflitos pessoais; e Raúl, vivido por Leonardo Sbaraglia, um realizador de prestígio em um limbo criativo. Raúl é apresentado como um possível alter ego de Almodóvar, tentando dar vida a um novo roteiro inspirado nas histórias de sua assistente, Mônica, enquanto negligencia completamente sua vida pessoal.

A metalinguagem sobre o processo artístico não é uma novidade na filmografia de Almodóvar, que já explorou temas semelhantes em obras como ‘A Lei do Desejo’ (1987), ‘Má Educação’ (2004) e ‘Dor e Glória’ (2019), onde cineastas também eram protagonistas de suas próprias angústias. No entanto, em ‘Natal Amargo’, a dinâmica se aprofunda ao apresentar criador e criatura simultaneamente, com a jornada de Elsa sendo moldada pela mente de Raúl, resultando em um complexo ‘filme dentro de outro’ que se desenrola entre 2004 e 2026.

Essa estrutura intrincada e ‘truncada’ exige um esforço considerável do espectador para acompanhar as duas narrativas paralelas, os saltos temporais e as transformações de personagens. O público é desafiado a decifrar quem inspira quem e a identificar a presença do próprio Almodóvar nessa grande brincadeira de espelhos. Apesar da complexidade narrativa, o filme entrega o que se espera de um ‘almodrama’ em termos estéticos: enquadramentos belíssimos e uma direção de arte primorosa, com cenários e objetos que hipnotizam o olhar, como as garrafas azuis, poltronas amarelas e casacos vermelhos.

O diretor demonstra que não perdeu a mão para dosar o drama com pitadas de humor, inserindo provocações perspicazes através dos diálogos. Mônica, a assistente de Raúl, questiona a complacência do cineasta com o próprio prestígio e sua resistência em produzir para plataformas de streaming, em falas que parecem ecoar as próprias reflexões de Almodóvar. Ao longo da trama, o cineasta projeta em seus personagens os embates que ele mesmo enfrenta: o medo da decadência, a escassez de criatividade, a dificuldade em encontrar novas histórias e o desafio de superar suas conquistas passadas.

A sinopse oficial do filme descreve o protagonista como alguém ‘capaz de vender a alma ao diabo’ para continuar escrevendo. Essa obsessão, no entanto, parece colidir com a vida real, que constantemente desmantela o controle do cineasta. Almodóvar é ousado ao propor uma reflexão tão íntima sobre sua própria trajetória e o custo humano da criação artística. Contudo, apesar de provocar uma expectativa de mergulho profundo, a obra é percebida como um exercício de metalinguagem que carece de uma honestidade mais explícita, entregando uma análise que, para alguns, se esquiva da imersão completa que ele próprio sugeriu.

Fonte: Cultura e Arte – G1

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