A exposição “Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade”, em cartaz no Museu da Língua Portuguesa (MLP), em São Paulo, foi encerrada antes da data prevista, levando a curadora Renata Prado a denunciar publicamente um ato de censura. A mostra, que contava com um vasto acervo de 473 obras, incluindo arte, fotografias, audiovisuais e vestuário, tinha previsão de ficar em exibição até agosto, mas foi finalizada em 31 de maio, conforme informações do site do museu.
Renata Prado expressou sua indignação em uma carta aberta nas redes sociais e em entrevista ao g1, afirmando que não houve diálogo prévio com o governo do Estado ou com a direção do MLP para discutir o encerramento. Ela declarou: “Ninguém [do governo do Estado ou do MLP] falou comigo, não houve diálogo para pensarmos um caminho. Sofremos um ataque sistemático e não conseguimos nos defender”.
A decisão de antecipar o término da exposição, segundo a curadora, ocorreu após uma série de “vídeos e manifestações de parlamentares da extrema direita atacando a mostra e associando seu conteúdo à apologia ao crime, às drogas e a narcocultura”. Desde o início dessas investidas, Renata foi informada pelo Museu da Língua Portuguesa de que a repercussão estava sendo monitorada.
Entre os críticos da exposição, destacou-se o deputado estadual Tenente Coimbra (PL), que publicou um vídeo em suas redes sociais afirmando ter visitado o evento e o qualificou como um “absurdo” por “enaltecê-lo a narcocultura”. O deputado declarou ter entrado em contato com a Secretaria de Cultura, prometendo “novidades” sobre o assunto.
Em resposta à polêmica, o Museu da Língua Portuguesa, procurado pelo g1, justificou o encerramento da exposição em 31 de maio “a fim de possibilitar a realização de duas novas mostras ainda este ano”. A instituição acrescentou que “FUNK” ficou em cartaz por seis meses, tempo que considerou “médio de exibição das mostras temporárias da instituição”, uma duração que contrasta com o ano e meio em que a mostra original esteve no Museu de Arte do Rio.
A curadora Renata Prado enfatizou a necessidade de “nomear o que está acontecendo” como censura, ressaltando a dimensão simbólica do episódio, especialmente por ocorrer em uma instituição dedicada à valorização das múltiplas formas de expressão cultural brasileira. Ela argumentou que o funk também é uma forma de linguagem, que “produz vocabulários, códigos e formas de comunicação que influenciam milhões de pessoas”. Questionou ainda: “Quem decide quais vozes merecem ocupar os espaços de memória do país?” e concluiu com um forte apelo: “Defender o funk é, também, defender a legitimidade das expressões jovens, negras e periféricas. É defender a vida de todo pobre loko que encontra nas culturas negras uma forma de existir. Seguimos em luta.”
Fonte: Cultura e Arte – G1