O cenário econômico global tem sido marcado pela renovação de máximas no mercado acionário norte-americano desde o final de 2023, impulsionado por lucros corporativos robustos, massivos investimentos em inteligência artificial (IA) e uma economia surpreendentemente resiliente. Contudo, a valorização do dólar frente ao real a partir de maio de 2026 introduz uma nova camada de complexidade para o investidor brasileiro, levantando a questão sobre a persistência da atratividade em dolarizar investimentos nas bolsas dos Estados Unidos.
A tese central defendida por especialistas é a superioridade da economia norte-americana em escala e força quando comparada à brasileira, com perspectivas futuras significativamente mais promissoras. Luciano Boudjoukian França, sócio-fundador e gestor de renda variável da Paramis Avantgarde Asset, argumenta que a preocupação primordial do investidor não deveria ser a de cronometrar a entrada no mercado internacional baseada na cotação do câmbio. Ele enfatiza que se trata de uma alocação estratégica de longo prazo, e não de um mero ‘trade’ cambial.
Apesar de reconhecer a pressão atual sobre o real, com o dólar em torno de R$ 5,20, França sugere uma abordagem de “entrada parcelada” para aqueles com baixa ou nenhuma exposição global. A premissa é clara: o maior risco reside em permanecer 100% dependente do Brasil, do real e dos juros locais. A estratégia de dividir o investimento em tranches mensais é recomendada para mitigar o risco de entrar com o dólar em um pico.
Diversos instrumentos financeiros facilitam essa exposição global sem a necessidade de retirar o dinheiro do país. Fundos negociados em bolsa (ETFs) na B3, como o IVVB11 (que acompanha o S&P 500) e o NASD11 (focado no Nasdaq-100, com forte concentração em tecnologia e IA), permitem ao investidor brasileiro acessar os principais índices do mercado norte-americano. Contudo, França adverte que o Nasdaq-100, embora tenha entregado excelentes retornos, é uma aposta mais concentrada, sendo o S&P 500 ou índices globais mais amplos geralmente mais adequados para a maioria dos investidores.
O crescimento acelerado das empresas de tecnologia e semicondutores, impulsionado pela IA, é um dos motores da performance norte-americana, como exemplificado pelo Philadelphia Semiconductor Index, que subiu mais de 70% no ano. No entanto, Ian Caó, diretor de Tecnologia da Gama Investimentos, ressalta que esse crescimento exponencial também dificulta a entrada de novos investidores. Em um cenário de inflação e juros altos nos EUA (entre 3,50% e 3,75%), o momento é desafiador, com a possibilidade de correção e uma recessão futura.
Além dos fatores cambiais e de mercado, especialistas como Guilherme Zanin, professor na Eu Me Banco e analista CFA, apontam um risco ainda maior para o brasileiro: a concentração de mais de 90% do patrimônio no Brasil. Estudos da XP Investimentos corroboram essa visão, indicando que, em uma década, investidores que mantiveram todo o capital no mercado doméstico obtiveram retornos menores e maior volatilidade em suas carteiras. A expectativa sobre a IA, com investimentos que podem atingir trilhões de dólares, também gera incertezas sobre quem serão os verdadeiros vencedores nesse novo cenário.
Rodolfo Marinho, sócio e diretor de Operações da IP Capital, observa que o rali atual é monotemático, com o capital novo fluindo predominantemente para semicondutores, energia e construção de data centers impulsionados pela “corrida do ouro” da IA. Ele aponta que essa concentração cria distorções, com empresas de grande porte e bom desempenho operacional, como Mastercard e Microsoft, sendo negociadas a múltiplos abaixo de seus patamares históricos. Para investidores que praticam o ‘stock picking’, essa distorção oferece uma janela atípica para alocar capital em empresas que não estão diretamente ligadas ao boom da IA, mas com forte fundamento.
A diversificação não se limita apenas aos EUA. Embora o país concentre os principais ativos tecnológicos, a Europa e a China também apresentam oportunidades. A Europa pode oferecer alternativas mais baratas em setores como bancos, indústria, defesa, luxo e energia, enquanto a China, apesar de companhias descontadas, carrega riscos de governança e intervenção estatal. Maurício Garret, chefe da mesa de operações internacionais do Inter, destaca o acesso facilitado a mercados globais via contas internacionais e ETFs, permitindo uma rápida diversificação.
Para os próximos meses, o investidor deverá monitorar de perto a inflação norte-americana e a resposta do Federal Reserve (Fed), que agora possui menos margem para cortes de juros. Os juros de dez anos e o prêmio fiscal dos EUA, bem como os lucros corporativos, serão variáveis críticas. No cenário geopolítico, o preço do petróleo, tarifas comerciais e a tensão EUA-China continuarão a pesar, enquanto no Brasil, o tema fiscal, a Selic, a inflação e o dólar ditarão o ritmo, com a piora nas contas públicas sinalizando juros mais altos e descontos na Bolsa doméstica.
Fonte: Trends