O pesquisador norte-americano Stephen Bocskay lança no Brasil o livro “Candeia – O samba, o Quilombo e o ativismo negro”, uma obra essencial para desvendar a complexidade da ideologia, personalidade, legado e as intrincadas contradições de Antonio Candeia Filho (1935 – 1978), um dos mais reverenciados sambistas. Lançado pela editora Malê, o título se posiciona mais como um ensaio antropológico do que uma biografia tradicional, embora aborde os marcos fundamentais da breve vida do artista, encerrada aos 43 anos.
A história de Candeia foi drasticamente alterada na madrugada de 13 de dezembro de 1965, quando cinco tiros o atingiram nas proximidades da Marquês de Sapucaí. O incidente, resultante de uma ação passional em um acidente de trânsito em que o sambista estava embriagado, deixou-o em coma e, posteriormente, em uma cadeira de rodas que o acompanhou até o fim da vida. Esses 13 anos restantes, contudo, seriam cruciais para o desenvolvimento de sua militância e a consagração como um dos maiores compositores de samba, com obras-primas como “Dia de graça”, “O mar serenou” e “Preciso me encontrar”.
Um dos pontos centrais da obra de Bocskay é o questionamento da tese de que Candeia teria sido um policial intransigente e truculento. Sem negar o temperamento forte do artista, Bocskay contextualiza a persistente popularidade de Candeia na Portela e em outras escolas de samba mesmo durante seu período como policial. A filha do sambista, Selma Candeia, corrobora essa visão ao defender que a fama de severidade era alimentada por aqueles que esperavam conivência com infrações nas comunidades que ele patrulhava, uma expectativa que Candeia se recusava a atender, aplicando a lei com rigor.
A matéria-prima mais rica do livro reside, entretanto, no aprofundado debate sobre o ativismo de Candeia. O autor explora a fundação do grêmio recreativo de arte negra e escola de samba Quilombo – uma agremiação dissidente que se contrapunha à crescente comercialização do Carnaval e enfrentou consideráveis resistências. Adicionalmente, o livro aborda o posicionamento de Candeia frente à proliferação dos bailes black no Rio de Janeiro nos anos 1970, um movimento que reunia milhares de jovens negros dançando ao som da música norte-americana, posteriormente conhecido como Black Rio.
É nesse ponto que a narrativa de Bocskay expõe a complexidade do ativismo cotidiano do sambista. Candeia, um defensor arraigado do nacionalismo e das tradições do samba, mostrou-se refratário ao avanço da música black norte-americana no universo da juventude carioca. Sua morte precoce, em 1978, impediu-o de revisitar esses conceitos. Contudo, Bocskay introduz uma tese intrigante ao defender que, na discografia de Candeia, já existiam diálogos latentes do samba com a soul music e a música afro-cubana, indicando uma sutileza maior em sua visão.
O pesquisador norte-americano descortina os bastidores da escola de samba Quilombo com a maestria de quem esmiuçou o tema, resultado de uma tese de doutorado defendida em uma universidade dos Estados Unidos, o que confere à narrativa solidez e riqueza em referências. Entrevistas com figuras como Dona Ivone Lara, Dom Filó, Elton Medeiros e Martinho da Vila contribuem para a construção de um perfil crível de Antonio Candeia Filho. Stephen Bocskay, em sua essência, escreve sobre Candeia sem o endeusamento, mas também sem negligenciar a importância da militância do sambista e policial – um ofício exercido por necessidade, não por vocação – que fez de sua vida e obra um potente ato político, deixando um pensamento crucial na construção da consciência negra ativista.
Fonte: Cultura e Arte – G1