O Amapá enfrenta uma das suas mais graves crises agrícolas e sociais, com a “vassoura-de-bruxa da mandioca” dizimando lavouras e ameaçando o sustento de milhares de famílias, especialmente em comunidades indígenas. A voz embargada do coordenador do Conselho de Caciques do Oiapoque, Edmilson Oliveira, ecoa a magnitude da tragédia: “Perder a roça é perder uma vida”, resume a profunda conexão entre a terra, o trabalho e a própria existência dessas populações.
Desde 2020, o município de Oiapoque, na fronteira norte do estado, testemunha a devastação causada por este agressivo patógeno. A doença, que se alastra com velocidade alarmante, já atingiu dez dos dezesseis municípios amapaenses, levando o governo estadual a decretar situação de emergência em 2024. O fungo Ceratobasidium theobromae, provável agente etiológico, é suspeito de ter cruzado a fronteira com a Guiana Francesa, instalando-se no solo amapaense. Uma vez que infecta a planta, ele bloqueia a circulação da seiva no caule, condenando a mandioca a secar e morrer, resultando na perda total da produção.
As consequências sociais são imediatas e dramáticas. Comunidades que historicamente prosperaram com o cultivo da mandioca – base alimentar e principal fonte de renda – veem-se agora em uma encruzilhada. O cacique Gilberto Iaparrá relata o desespero de muitos produtores que, sem alternativa, foram compelidos a recorrer ao programa federal Bolsa Família. “Não tinha mais pra onde correr”, desabafa Iaparrá, contrastando a antiga autossuficiência com a atual dependência. “Era melhor trabalhar e plantar, porque quando tem o rendimento é melhor que o Bolsa Família. A gente acostumava fazer 100 kg, já ganhava R$ 1.400. Hoje não tem”, revela, expondo a drástica queda na qualidade de vida e na dignidade do trabalho.
A Ciência, por sua vez, luta contra o tempo e contra as lacunas no conhecimento sobre o comportamento da doença. Até o momento, não há tratamento eficaz para conter o avanço da vassoura-de-bruxa da mandioca. Para o agrônomo Stephan Winter, este é o quadro fitossanitário mais preocupante que já acompanhou, dada a escassez de informações sobre a dinâmica do fungo na natureza. Sua colega, a agrônoma Samar Winter, complementa, alertando para a extraordinária rapidez com que o patógeno se espalha, tornando qualquer estratégia de contenção um desafio hercúleo.
Diante do cenário crítico, o governo do Amapá já destinou R$ 8 milhões em ações para tentar frear a progressão da doença, conforme informado por Beatriz Barros, secretária de Desenvolvimento Rural do Amapá. Contudo, a preocupação se intensifica com a possibilidade de a vassoura-de-bruxa alcançar a região de Pacuí, que detém o título de maior produtora de farinha de mandioca do estado. Uma eventual contaminação ali representaria um golpe devastador na economia local e na segurança alimentar de toda a população, transformando a crise de um problema regional em uma calamidade de proporções ainda maiores e de difícil reversão.
Fonte: GLOBO RURAL



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