O programa Globo Rural, celebrando seus 46 anos, destacou recentemente a vibrante persistência dos cantos de trabalho em comunidades rurais do Brasil. Essa antiga tradição musical, intrinsecamente ligada às atividades manuais do campo, não apenas estimula e suaviza tarefas repetitivas e exaustivas, mas também se transforma em uma autêntica celebração da vida e da cultura.
Da Bahia, onde produtores entoam ritmos enquanto debulham feijão, a Alagoas, onde crianças Kariri-Xocó se conectam com a ancestralidade através da música, a prática se manifesta em diversas formas. Em Minas Gerais, mutirões para a produção de farinha e algodão são embalados por melodias coletivas, reforçando laços comunitários e produtividade.
No interior do Paraná, na comunidade de Faxinal do Emboque, o agricultor Nelson Przyvitowski mantém um costume ancestral único: o assobio. Para ele, o som é um companheiro essencial que dita o compasso das tarefas diárias, desde arar a terra até cuidar dos animais. Ao lado de sua esposa, Marli, Nelson preserva o folclore polonês em um barracão centenário, onde canções narrando a vida de seus antepassados acompanham o trabalho em máquinas manuais de madeira. Mesmo enraizada na tradição, a modernidade se faz presente, com Marli utilizando a internet para aprimorar a produção e venda de produtos caseiros.
Em Minas Gerais, na região de Arinos, o grupo Central Veredas ilustra o poder dos cantos de trabalho para as mulheres. Bordadeiras e fiandeiras relatam que o canto coletivo não só alivia a ansiedade e os problemas domésticos, mas também fortalece uma rede de cooperação. Com 160 mulheres associadas e um mapeamento de mais de 250 canções de trabalho na região, a iniciativa gera um faturamento anual de cerca de R$ 350 mil, demonstrando o impacto econômico e cultural dessa tradição.
A força dos mutirões é evidente em Urucuia, Minas Gerais, onde vizinhos e parentes se reúnem em casas de farinha comunitárias. Cantigas tradicionais tornam o processamento de centenas de quilos de mandioca um trabalho mais fluido e alegre, transmitindo uma herança familiar através de versos antigos. Em Alagoas, a octogenária Dona Rosália, mestre no coco de roda e voz do grupo “Cabelo de Maria”, transformou rito em arte, resgatando a memória das “tapagens de taipa” em seu CD. A música também acompanha as destaladeiras de fumo em Arapiraca, mantendo viva a agricultura familiar local.
Pesquisadores têm se debruçado sobre a complexidade dos cantos de trabalho. Em Serra Preta, Bahia, a “bata de feijão” demanda uma sincronia quase matemática, onde o canto responsorial guia o ritmo dos bastões, evitando acidentes e humanizando a tarefa, como explica a pesquisadora Renata Mattar. Na aldeia Kariri-Xocó, o “rojão de roça” é visto como uma fusão inseparável de corpo e espírito entre canto e tarefa.
Para o professor Iván García, da Universidade Nacional Autônoma do México, esses cantos representam a “madrugada das formas poéticas”, a própria origem da poesia, presentes em diversas culturas globais – do ritmo sincronizado de “La Bamba” no México aos cantos de ordenha na Venezuela, que acalmam o gado e criam um diálogo entre homem e animal. No Brasil, o “aboio” cumpre função similar, transmitindo paz e energia aos animais. A tradição se renova, como na Bahia com Alvino Dias, autor de “chulas” que incorporam temas contemporâneos, como o impacto do WhatsApp na rotina do campo.
Fonte: [NOTICIAS] GLOBO RURAL



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