{"id":1052,"date":"2026-02-27T19:16:12","date_gmt":"2026-02-27T22:16:12","guid":{"rendered":"https:\/\/audiview.com.br\/news\/2026\/02\/27\/de-um-destilador-caseiro-a-vanguarda-da-biotecnologia-a-jornada-da-cientista-brasileira-que-cria-orgaos-em-chip\/"},"modified":"2026-02-27T19:16:12","modified_gmt":"2026-02-27T22:16:12","slug":"de-um-destilador-caseiro-a-vanguarda-da-biotecnologia-a-jornada-da-cientista-brasileira-que-cria-orgaos-em-chip","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/audiview.com.br\/news\/de-um-destilador-caseiro-a-vanguarda-da-biotecnologia-a-jornada-da-cientista-brasileira-que-cria-orgaos-em-chip\/","title":{"rendered":"De Um Destilador Caseiro \u00e0 Vanguarda da Biotecnologia: A Jornada da Cientista Brasileira que Cria \u00d3rg\u00e3os-em-Chip"},"content":{"rendered":"<p>A paix\u00e3o pela ci\u00eancia, muitas vezes, nasce de observa\u00e7\u00f5es singelas, mas transformadoras. Para Ana Carolina Figueira, essa epifania ocorreu durante uma aula de qu\u00edmica, quando um destilador caseiro, montado de forma simples e engenhosa, capturou sua aten\u00e7\u00e3o. \u201cAquilo me brilhou os olhos. Eu pensei: \u2018Nossa, isso \u00e9 muito legal\u2019\u201d, rememora a pesquisadora, destacando o momento que catalisou um despertar para o mundo da experimenta\u00e7\u00e3o e do conhecimento cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Natural de Ourinhos, no interior paulista, Ana Carolina trilhou grande parte de sua forma\u00e7\u00e3o em escolas p\u00fablicas, onde as oportunidades de aulas pr\u00e1ticas eram escassas. Recorda-se, por exemplo, de uma ocasi\u00e3o em que a turma dissecou frutas para identificar estruturas internas. Essas experi\u00eancias, ainda que raras, alimentaram sua curiosidade inata. \u201cComecei a me perguntar se dava para estudar fazendo experimento. Na \u00e9poca, eu nem falava \u2018ci\u00eancia\u2019, mas foi ali que come\u00e7ou\u201d, explica.<\/p>\n<p>No terceiro ano do ensino m\u00e9dio, a mudan\u00e7a para uma institui\u00e7\u00e3o de ensino particular precedeu os exames vestibulares. Ana Carolina foi aprovada em Medicina e Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas, optando pela segunda op\u00e7\u00e3o na Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar). A escolha foi motivada pela percep\u00e7\u00e3o de que as Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas ofereciam um campo mais vasto para a pesquisa e para a elucida\u00e7\u00e3o das indaga\u00e7\u00f5es que a inquietavam.<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o da corre\u00e7\u00e3o de sua escolha n\u00e3o tardou a manifestar-se. Logo no primeiro ano da gradua\u00e7\u00e3o, Ana Carolina obteve uma vaga em inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica na \u00e1rea de bioqu\u00edmica, dedicada ao estudo das mol\u00e9culas essenciais ao funcionamento do organismo. Sua imers\u00e3o no laborat\u00f3rio foi imediata e definitiva. Contudo, cerca de seis meses depois, uma paralisa\u00e7\u00e3o das atividades universit\u00e1rias imp\u00f4s uma interrup\u00e7\u00e3o. Em vez de aguardar o fim da greve, a ent\u00e3o estudante buscou alternativas, encontrando uma oportunidade no Instituto de F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) em S\u00e3o Carlos, onde um grupo investigava prote\u00ednas \u2013 as macromol\u00e9culas respons\u00e1veis pela maior parte das fun\u00e7\u00f5es celulares. Sem hesitar, ela se apresentou no laborat\u00f3rio, solicitando uma chance de est\u00e1gio, que lhe foi concedida.<\/p>\n<p>Essa transi\u00e7\u00e3o marcou um novo paradigma em sua abordagem da biologia. Ana Carolina passou a explorar n\u00e3o apenas os efeitos das prote\u00ednas no organismo, mas aprofundou-se em sua estrutura interna, formato e como essa conforma\u00e7\u00e3o tridimensional determina sua fun\u00e7\u00e3o. Para isso, recorreu a ferramentas da f\u00edsica, capazes de revelar a arquitetura dessas mol\u00e9culas invis\u00edveis a olho nu. Permaneceu nesse ambiente por dois anos e meio, com o apoio de uma bolsa da Fapesp, uma das mais prestigiadas ag\u00eancias de fomento \u00e0 pesquisa no pa\u00eds. Durante esse per\u00edodo, consolidou sua voca\u00e7\u00e3o para a pesquisa, apreciando a rotina, o ambiente acad\u00eamico e a incessante sensa\u00e7\u00e3o de desvendar o novo.<\/p>\n<p>Ao concluir a gradua\u00e7\u00e3o, Ana Carolina tomou uma decis\u00e3o audaciosa e, para a \u00e9poca, incomum, especialmente em sua \u00e1rea: ingressou diretamente no doutorado no Instituto de F\u00edsica da USP S\u00e3o Carlos, sem cursar o mestrado. \u201cFui uma das primeiras mulheres da f\u00edsica a passar no doutorado direto naquela \u00e9poca\u201d, relembra a cientista, sublinhando o car\u00e1ter pioneiro de sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Durante o doutorado, seu foco de pesquisa recaiu sobre prote\u00ednas que atuam como receptores hormonais, como os de estr\u00f3geno e horm\u00f4nios da tireoide. Esses receptores funcionam como sensores, detectando a presen\u00e7a de horm\u00f4nios e, consequentemente, ativando ou desativando processos fisiol\u00f3gicos cruciais, como crescimento, metabolismo e produ\u00e7\u00e3o de energia. A compreens\u00e3o aprofundada do funcionamento dessas prote\u00ednas \u00e9 crucial para elucidar patologias hormonais e subsidiar o desenvolvimento de terapias inovadoras.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a defesa de sua tese, Ana Carolina empreendeu um per\u00edodo de p\u00f3s-doutorado nos Estados Unidos, no Hospital Metodista de Houston, em colabora\u00e7\u00e3o com a Universidade de Houston. Durante oito meses, dedicou-se a novos estudos, interagiu com outros grupos de pesquisa e absorveu diferentes metodologias cient\u00edficas. No entanto, seu intento sempre foi retornar ao Brasil. Pouco tempo ap\u00f3s seu regresso, obteve uma posi\u00e7\u00e3o como pesquisadora no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, um dos principais polos cient\u00edficos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No CNPEM, Ana Carolina prosseguiu com o estudo das prote\u00ednas, aprofundando-se nos mesmos problemas que a fascinavam desde a inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Contudo, com o tempo, sentiu a necessidade de transcender a an\u00e1lise molecular e abordar um n\u00edvel de complexidade superior: as c\u00e9lulas inteiras, que representam as menores unidades vivas do corpo. Dentro delas, milhares de prote\u00ednas interagem simultaneamente em um ambiente intrincado. O avan\u00e7o natural dessa linha de racioc\u00ednio a levou ao estudo dos tecidos, que s\u00e3o conjuntos organizados de c\u00e9lulas com fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, como a pele ou o f\u00edgado.<\/p>\n<p>Essa progress\u00e3o culminou em um desafio ainda mais ambicioso: a tentativa de reproduzir, em laborat\u00f3rio, pequenas vers\u00f5es de \u00f3rg\u00e3os humanos. A premissa era que, se fosse poss\u00edvel manter tecidos vivos fora do corpo, tamb\u00e9m seria vi\u00e1vel conect\u00e1-los e observar suas intera\u00e7\u00f5es. Esses sistemas s\u00e3o conhecidos como \u00f3rg\u00e3os-em-chip. Apesar da nomenclatura, n\u00e3o se trata de um chip eletr\u00f4nico, mas de um pequeno dispositivo transparente, do tamanho de uma l\u00e2mina de microsc\u00f3pio. Dentro dele, os pesquisadores cultivam c\u00e9lulas humanas organizadas de modo a emular o funcionamento de um \u00f3rg\u00e3o real.<\/p>\n<p>Atualmente, Ana Carolina coordena um grupo de pesquisa dedicado ao desenvolvimento dessa tecnologia. O objetivo primordial \u00e9 criar modelos que possam, ao menos em parte, substituir os testes realizados em animais. Ela ressalta que, embora os modelos animais tenham desempenhado um papel relevante na ci\u00eancia, apresentam limita\u00e7\u00f5es significativas. \u201cOs modelos animais, al\u00e9m das quest\u00f5es \u00e9ticas, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o preditivos. Um animal n\u00e3o \u00e9 um ser humano, existe uma diferen\u00e7a gen\u00e9tica importante\u201d, pontua a cientista. Isso implica que uma subst\u00e2ncia considerada segura em um camundongo, por exemplo, pode n\u00e3o apresentar o mesmo efeito em humanos, e vice-versa.<\/p>\n<p>Em um dos modelos desenvolvidos pela equipe, os pesquisadores criaram uma pequena vers\u00e3o do f\u00edgado e a inseriram no dispositivo. Em outro compartimento, \u00e9 poss\u00edvel cultivar pele. Esses compartimentos s\u00e3o interligados por canais microsc\u00f3picos, por onde circula um l\u00edquido que mimetiza o sangue. Tal arranjo permite simular, em escala reduzida, o que ocorre no corpo humano. Se um produto \u00e9 aplicado sobre a pele, por exemplo, os cientistas conseguem observar se ele atravessa essa barreira, entra na circula\u00e7\u00e3o e alcan\u00e7a o f\u00edgado, principal \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel por processar subst\u00e2ncias qu\u00edmicas. Na pr\u00e1tica, o sistema permite monitorar o percurso de uma subst\u00e2ncia e verificar se ela provoca danos \u00e0s c\u00e9lulas, auxiliando na identifica\u00e7\u00e3o de riscos antes que um produto seja testado em humanos.<\/p>\n<p>A tecnologia dos \u00f3rg\u00e3os-em-chip possui aplica\u00e7\u00f5es em diversas \u00e1reas, desde o desenvolvimento de novos medicamentos \u2013 para avaliar a toxicidade de um composto \u2013 at\u00e9 o teste de cosm\u00e9ticos e ingredientes alimentares. No Brasil, a proibi\u00e7\u00e3o de testes de cosm\u00e9ticos em animais, por exemplo, intensifica a necessidade de m\u00e9todos alternativos e inovadores.<\/p>\n<p>O trabalho da equipe de Ana Carolina encontra-se em uma etapa crucial. Embora j\u00e1 tenham constru\u00eddo um prot\u00f3tipo funcional, \u00e9 fundamental demonstrar a confiabilidade do m\u00e9todo. Isso envolve um processo rigoroso de valida\u00e7\u00e3o, no qual diferentes laborat\u00f3rios replicam os experimentos para assegurar a consist\u00eancia dos resultados. Somente ap\u00f3s essa etapa a tecnologia poder\u00e1 ser oficialmente reconhecida e adotada pela ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Ana Carolina reconhece que este \u00e9 um percurso longo, marcado por tentativas, erros e pequenos progressos acumulados. Contudo, \u00e9 precisamente essa jornada que a impulsiona. \u201cEu costumo dizer que a gente vai juntando as pecinhas de um quebra-cabe\u00e7a. Um dia voc\u00ea monta um peda\u00e7o, depois outro\u201d, afirma. Sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria reflete esse ritmo, embora tamb\u00e9m tenha enfrentado desafios. Ao ingressar no doutorado em f\u00edsica, notou rapidamente sua condi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o. \u201cA maioria das pessoas era homem. Os professores tamb\u00e9m eram, em sua maioria, homens\u201d, relembra. Apesar disso, ela cr\u00ea em um cen\u00e1rio de transforma\u00e7\u00e3o e que parte dessa mudan\u00e7a depende de dar visibilidade \u00e0s mulheres que j\u00e1 atuam na ci\u00eancia. Afinal, as refer\u00eancias n\u00e3o se limitam a livros ou pr\u00eamios; muitas v\u00eam de perto: professoras, orientadoras e colegas.<\/p>\n<p>Hoje, Ana Carolina Figueira tamb\u00e9m se tornou uma refer\u00eancia. Recentemente, foi uma das 25 cientistas laureadas na Am\u00e9rica Latina pelo Pr\u00eamio 25 Mulheres na Ci\u00eancia, da 3M. A premia\u00e7\u00e3o reconhece mulheres que desenvolvem pesquisas de alta visibilidade, inova\u00e7\u00e3o e impacto social, com foco na ind\u00fastria. Ela enxerga o reconhecimento como uma oportunidade para ampliar o alcance de sua pesquisa. \u201cO principal \u00e9 a visibilidade. Mostra que n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, que d\u00e1 para fazer\u201d, afirma, e, sobretudo, que \u00e9 poss\u00edvel realizar ci\u00eancia de ponta no Brasil.<\/p>\n<p>Para os jovens que ponderam uma carreira cient\u00edfica, seu conselho \u00e9 a persist\u00eancia. \u201cN\u00e3o tenha medo de aprender, n\u00e3o tenha medo de errar. Seja resiliente, n\u00e3o desista.\u201d A cientista continua guiada pela mesma curiosidade que aflorou d\u00e9cadas atr\u00e1s, diante daquele destilador improvisado. \u201cNem que seja para contribuir com um gr\u00e3ozinho de areia nessa praia toda, a gente est\u00e1 fazendo a nossa parte.\u201d<\/p>\n<p><small>Fonte: [CURIOSIDADES] SUPER INTERESSANTE<\/small><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A paix\u00e3o pela ci\u00eancia, muitas vezes, nasce de observa\u00e7\u00f5es singelas, mas transformadoras. 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