Os cantos de trabalho, uma tradição ancestral que acompanha e harmoniza as atividades manuais, continuam a ser uma parte vital da rotina em diversas comunidades rurais brasileiras. Presentes onde o labor manual ainda é predominante, essas manifestações vocais e rítmicas servem tanto para impulsionar quanto para suavizar tarefas repetitivas e extenuantes, transformando-as em momentos de cooperação e celebração.
A prática, que estimula e conecta com a ancestralidade, se manifesta de diferentes formas pelo país. Na Bahia, produtores rurais entoam melodias enquanto batem as vagens de feijão para soltar os grãos. Em Alagoas, crianças da etnia Kariri-Xocó se conectam à sua herança cultural por meio dos cantos. Já em Minas Gerais, mutirões comunitários para a produção de farinha e algodão são embalados por canções coletivas.
No interior do Paraná, na comunidade de Faxinal do Emboque, o agricultor Nelson Przyvitowski mantém o costume ancestral do assobio, que lhe faz companhia e ritma suas tarefas no campo. Ao lado da esposa, Marli, ele preserva o folclore polonês em um barracão centenário, entoando canções que narram a vida de seus antepassados enquanto operam máquinas manuais. Marli, contudo, também integra a modernidade ao utilizar a internet para buscar receitas e aprimorar a produção de produtos de limpeza caseiros, que comercializa.
Em Minas Gerais, na região de Arinos, o grupo Central Veredas reúne bordadeiras e fiandeiras que encontram no canto coletivo uma forma de aliviar a ansiedade e esquecer problemas domésticos, como expressa um dos versos entoados: “Elas bordam dia e noite para a família sustentar”. A associação, composta por 160 mulheres, já mapeou mais de 250 canções de trabalho locais e gera um faturamento anual de aproximadamente R$ 350 mil, beneficiando uma rede de artesãs.
A força dos cantos de trabalho também se manifesta nos mutirões comunitários, como os que ocorrem nas casas de farinha de Urucuia, em Minas Gerais. Nesses encontros, vizinhos e familiares se unem em cantigas para processar até 500 kg de mandioca em um único dia, trocando versos e quadrinhas antigas que tornam o trabalho mais produtivo e fortalecem laços de herança familiar.
Aos 80 anos, a trabalhadora rural Dona Rosália, de Arapiraca (AL), levou essa tradição dos campos para os palcos, lançando um CD com o grupo “Cabelo de Maria”, dedicado à pesquisa da música regional. Mestra no coco de roda, ela traz em sua voz a memória das “tapagens de taipa”, rituais onde o barro era batido ao ritmo dos pés e do canto para erguer paredes. Na mesma região, as destaladeiras de fumo, mulheres que retiram manualmente o talo das folhas após a colheita, ainda utilizam a música em suas tarefas, adaptando a prática coletiva dos grandes salões para um formato mais doméstico, sustentando a agricultura familiar local.
A importância dos cantos de trabalho é reconhecida por pesquisadores. Em Serra Preta, na Bahia, o mutirão da bata de feijão exige precisão matemática, com o canto responsorial guiando o ritmo dos bastões para evitar acidentes. “O canto vem para humanizar o trabalho”, explica a pesquisadora Renata Mattar. Na aldeia Kariri-Xocó, o “rojão de roça” é visto como uma fusão inseparável entre corpo e espírito, unindo canto e tarefa.
Para o professor Iván García, da Universidade Nacional Autônoma do México, os cantos de trabalho estão na “madrugada das formas poéticas”, representando a própria origem da poesia e demonstrando uma universalidade cultural. O ritmo, que serve para unir a força coletiva, é observado em canções como a famosa “La Bamba” mexicana, inspirada na sincronia dos marinheiros. Essa prática torna o trabalho mais tolerável e alinhado entre os trabalhadores, como também ocorre nos cantos de ordenha na Venezuela, que acalmam o rebanho e estabelecem um diálogo entre o ordenhador e as vacas.
No Brasil, o “aboio” é um exemplo notável, utilizado por criadores de boi para guiar o gado, transmitindo “paz e energia” aos animais, conforme Mattar. Na Bahia, essa tradição se renova com o agricultor Alvino Dias, autor de “chulas” – cantigas de trabalho da região – que incorporam temas contemporâneos, como o impacto do WhatsApp e do celular na rotina do campo.
Fonte: GLOBO RURAL



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