Especialistas em saúde global têm levantado preocupações sobre o impacto dos cortes na ajuda internacional e a saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS) durante a administração do ex-presidente Donald Trump, apontando-os como fatores que podem ter dificultado uma resposta rápida e eficaz ao surto de Ebola em curso na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda. O atual surto, que difere das epidemias anteriores, envolve uma variante mais rara e letal do vírus, a Bundibugyo, para a qual não há vacina nem tratamentos específicos.
Desde o início do milênio, a África tem enfrentado surtos de Ebola quase anualmente, mas a situação atual é particularmente alarmante. Enquanto a maioria dos surtos anteriores, incluindo a devastadora epidemia na África Ocidental, estava associada à cepa Zaire — para a qual existe uma vacina —, a variante Bundibugyo se mostra mais resistente e com uma taxa de mortalidade de aproximadamente um em cada três infectados. Este é o terceiro e mais letal surto causado por essa cepa, com cerca de 900 casos suspeitos e mais de 200 mortes registradas até o momento pela OMS e autoridades congolesas.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, manifestou profunda preocupação com a dimensão e a velocidade da epidemia, declarando emergência de saúde pública internacional em 17 de maio, sem a consulta prévia a especialistas, devido à aparente propagação indetectada do vírus por semanas. Esta situação ocorre em um momento crítico, onde organizações humanitárias enfrentam orçamentos drasticamente reduzidos, principalmente devido aos cortes nos gastos com ajuda humanitária dos EUA, implementados pelo governo Trump.
Os cortes de financiamento da USAid (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) e a redução das contribuições à saúde global têm levado especialistas a questionar se o surto poderia ter sido identificado mais cedo. Heather Reoch Kerr, diretora do Comitê Internacional de Resgate na RDC, afirmou que as reduções em 2025 forçaram a organização a diminuir suas atividades de prevenção, deixando a região “perigosamente exposta”. O epidemiologista Eric Feigl-Ding alertou que os casos confirmados são apenas a “ponta do iceberg”, com a propagação ocorrendo mais rapidamente do que no surto de 2014 na África Ocidental, e que o enfraquecimento da infraestrutura de saúde global é um fator determinante.
Matthew Kavanagh, da Universidade de Georgetown, reiterou que a retirada de bilhões da OMS e o desmantelamento de programas de linha de frente da USAid cortaram “exatamente o sistema de vigilância destinado a detectar esses vírus em estágio inicial”. As medidas da administração Trump incluíram a suspensão de repasses e revisão de utilização de fundos, demissões de funcionários e cortes temporários de até 90% dos recursos. Embora parte do financiamento tenha sido restaurada pelo Congresso, as interrupções causaram impactos significativos, agravados pelo fato de que até mesmo países europeus também reduziram suas contribuições para a cooperação internacional. Inclusive, Elon Musk, à frente do Departamento de Eficiência Governamental, admitiu ter encerrado “por engano” programas de combate ao ebola.
Adicionalmente, a decisão de Trump de retirar os EUA da OMS, formalizada um ano depois, privou a organização de um de seus maiores financiadores. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA também sofreu cortes expressivos, com demissão de pessoal e cancelamento de contratos, o que, segundo a imprensa americana, levou à demissão e posterior reintegração de especialistas cruciais no combate ao Ebola.
O governo Trump, por sua vez, refuta as acusações. Tommy Pigott, porta-voz do Departamento de Estado, declarou ser “falso afirmar que a reforma da USAid tenha tido um impacto negativo na nossa capacidade de responder ao ebola”. Na última semana, o Departamento de Estado anunciou o financiamento de até 50 clínicas de tratamento na RDC e em Uganda, reafirmando o compromisso americano. Contudo, o secretário de Estado, Marco Rubio, criticou a OMS pela suposta demora na identificação do surto, o que Tedros Adhanom Ghebreyesus qualificou como “falta de compreensão” sobre as responsabilidades da organização.
Além da redução de recursos, outros fatores complicam a contenção do surto. Julie Drouet, diretora da ONG Ação contra a Fome na RDC, destacou que a variante Bundibugyo é rara e foi inicialmente difícil de detectar, e os primeiros casos surgiram em regiões remotas, atrasando a identificação. A instabilidade política e a atuação de grupos armados nas províncias de Kivu do Norte, Kivu do Sul e Ituri, juntamente com o deslocamento populacional, dificultam ainda mais o trabalho de ajuda humanitária. Apesar dos desafios, equipes médicas continuam atuando intensamente, com a OMS liberando uma ajuda inicial de 3,9 milhões de dólares. Especialistas reforçam a necessidade de um financiamento global ampliado para conter o surto antes que ele se agrave, especialmente com o registro de casos em grandes centros populacionais como Goma e Kampala.
Fonte: BAND JORNALISMO