A primeira impressão de “Mano”, álbum que propõe uma audaciosa conexão entre o icônico Erasmo Carlos (1941 – 2022) e a nova geração de rappers brasileiros, pode ser inicialmente desafiadora. Lançado com oito faixas, o projeto revisita e recria músicas do cantor e compositor carioca, lançadas entre 1971 e 1973, um período crucial de expansão em seu repertório, que o distanciou do rock hedonista da Jovem Guarda para abraçar outras sonoridades.
Na faixa de abertura, “É preciso dar um jeito, meu amigo / A vida irrita a arte”, a canção original de Erasmo, presente no álbum “Carlos, Erasmo” (1971) e recentemente amplificada na trilha sonora do filme “Ainda estou aqui” (2024), quase se dissolve. Ao longo de três minutos, fragmentos da gravação de 1971, como o riff de guitarra da introdução, são ofuscados por um discurso potente de Emicida, sobre uma base elaborada pelo duo Tropkillaz. Nesta faixa inicial, a ambição do empresário Léo Esteves – filho de Erasmo e idealizador do projeto – de fazer a obra do pai circular por novas galáxias do universo pop, através do hip hop, parece não se concretizar plenamente.
O diálogo entre o cancioneiro de Erasmo e o rap foi uma proposta de Marcus Preto, figura central na organização do projeto. Convocado por sua experiência como diretor artístico dos últimos álbuns de Erasmo, incluindo o aclamado “… Amor é isso” (2018), Preto buscou estabelecer pontes genuínas entre os universos musicais.
Felizmente, a impressão inicial mitigada pela faixa com Emicida se dissipa progressivamente. “Mano” ganha força e brilho à medida que a interação entre gerações e gêneros se efetiva. Nesse contexto, a intervenção de Budah em “Cachaça mecânica” (1973) é louvável. Esta faixa, um samba-rock no qual Erasmo incorporou influências de Chico Buarque em um single daquele ano, é o primeiro ponto de virada do álbum.
Em “Cachaça mecânica / Queimando tudo”, formatada por Tibery com uma produção que oscila entre o soul e o rap, a gravação de Erasmo é ouvida, mas a rapper capixaba Budah não apenas canta trechos da letra original do samba-rock, como também amplifica a narrativa da angústia crescente de João, o protagonista da letra, por meio do rap. A simbiose alcança a perfeição, tornando a faixa o ápice de “Mano”, pois Budah consegue expor com maestria todo o peso psicológico de João em seu discurso.
Com sagacidade, o rapper Dexter, em “Quem é herói ou vilão?”, alude ao refrão-título de “Tá todo mundo louco”, um dos maiores sucessos de Silvio Brito em 1974, ao comentar o discurso de “Mundo cão” (1972) – música de Erasmo presente no álbum “Sonhos e memórias – 1941 / 1972”. Em um rap construído sobre a base de Coyote Beatz, o diálogo se estabelece sem anular a presença marcante de Erasmo, diferentemente da experiência inicial com Emicida.
Do mesmo álbum de 1972, “Mano” reativa a balada romântica “Sábado morto” e a canção “Sorriso dela”, ambas reprocessadas com a produção musical de Pupillo. Em “Sábado morto”, a voz original de Erasmo é ouvida nos dois minutos iniciais sobre a base de Pupillo, até a entrada do rap de Xamã (“Eu enquanto pássaro”), cujos versos inteligentemente citam a fama de mau do Tremendão. A voz de Erasmo retorna, agora sobre um riff de guitarra, em uma ambiência mais rocker, demonstrando uma coesão superior à intervenção de Rael em “Sorriso dela” com o rap “Não tem pra ninguém”, que evoca a música negra norte-americana da década de 1970.
Ao longo de “Mano”, a contribuição feminina no rap se destaca significativamente. A dupla Tasha & Tracie rima sobre batidas suaves do produtor Pizol no rap “O tempo é amigo e inimigo”, dialogando de forma inteligente com a faixa “Grilos” (1972). Mais óbvias em sua eficácia são a presença de Marcelo D2 e a cadência do reggae na atualização do samba-rock “Maria Joana” (1971), cuja letra original aludia ao consumo de maconha pelo artista na época. Com produção de Nave, D2 entrega um discurso libertador nos versos de “Pra que as trevas destravem”.
O álbum “Mano” culmina em um ponto alto com a reunião de Erasmo, Criolo e Tássia Reis em “Gente aberta / Imensamente visceral”. Criolo empresta sua voz aos versos de “Gente aberta” (1971) em um dueto convencional com Erasmo, até a entrada poderosa do rap de Tássia Reis. A pulsação do toque de Edy Trombone amplifica a atmosfera de sedução dessa faixa, que encerra “Mano” de forma robusta e positiva. O álbum é um testemunho de que, de fato, a primeira impressão nem sempre é a que fica, revelando um saldo artístico que surpreende e cativa.
Fonte: Cultura e Arte – G1