Álbum Póstumo de Gal Costa Revela Luz Celestial em Show Inédito!

A memória de Gal Costa (1945 – 2022) ressurge de forma impactante com o lançamento de seu álbum póstumo, marcado para 22 de maio. Intitulado “Gal Costa – Ao vivo no Teatro Castro Alves”, o trabalho imortaliza um show memorável realizado em Salvador (BA) em 22 de maio de 2003, apresentando 24 músicas que capturam a essência de sua performance ao lado do violonista Luiz Meira. O disco, que chega ao mercado fonográfico com capa assinada pelo artista plástico Omar Salomão, adquire uma grandeza singular pela ausência da artista, que deixou um vazio irreparável na música brasileira.

Se tivesse sido lançado durante a vida da cantora, esse show de voz e violão, realizado ocasionalmente por Gal e Luiz Meira entre 1997 e 2016, talvez fosse recebido com um certo desdém pela crítica, que muitas vezes o considerava um trabalho de entressafra, sem o peso dos grandes lançamentos da carreira da artista. Contudo, a partida precoce de Maria da Graça Costa Penna Burgos (1945 – 2022) confere a este registro um valor inestimável, transformando-o em um documento emocionante da sua genialidade vocal. Produzido por Marco Mazzola e valorizado pela primorosa masterização de Carlos Freitas, o álbum é uma parceria das gravadoras Biscoito Fino e MZA Music.

O áudio do álbum é descrito como luminoso, tal qual a voz cristalina de Gal. O roteiro do show, parte do projeto “Vozes do Brasil” (ou “Vozes da MPB”, como mencionado por Gal), segue uma linha narrativa que explora os caminhos e mistérios da arte de cantar. A abertura é feita por duas canções de Caetano Veloso, “Coraçãozinho” (1996), ouvida a capella, e “Minha voz, minha vida” (1982), estabelecendo um tom introspectivo e poético. Essa sequência não é aleatória; ela prepara o ouvinte para a profundidade do que viria.

Na sequência, Gal transita com naturalidade para o suingue do samba “Eu vim da Bahia” (Gilberto Gil, 1965), traçando uma rota que remete à sua própria jornada musical, alterada em 1958 com a audição do samba “Chega de saudade” (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes) na voz de João Gilberto. O samba que iniciou a bossa nova, cantado em coro pelo público com o incentivo de Gal, aparece logo após o samba de Gil, demonstrando a cuidadosa curadoria do repertório. À medida que a gravação avança, é notável a sensação de que a voz de Gal irradiava uma luz que parecia vir do céu, uma luz que se assemelha à cantiga mencionada por Caetano em “Coraçãozinho”.

A melancólica “Onde Deus possa me ouvir” (Vander Lee, 2002), apresentada pela cantora no álbum “Gal bossa tropical” (2002), surge neste registro ao vivo de forma ainda mais apropriada, ganhando novas camadas de emoção. Ancorada no porto seguro do violão de Luiz Meira, um instrumentista que evita o exibicionismo técnico para servir à canista, Gal revisita clássicos recorrentes em seus shows, como “Azul” (Djavan, 1982), “Folhetim” (Chico Buarque, 1978), “Força estranha” (Caetano Veloso, 1978), “Tigresa” (Caetano Veloso, 1977) e “Vapor barato” (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971).

Além dos sucessos, a artista dá voz a músicas menos associadas à sua discografia. O hit recente do grupo Titãs, a balada “Epitáfio” (Sérgio Britto, 2001), gravada no álbum “Gal bossa tropical”, marcou presença nos shows com Luiz Meira na época. Outra balada, “Olha” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1975), ressurge sedutora e envolvente, superando a gravação “abolerada” do álbum “Gal tropical” (1979). O formato minimalista de voz e violão sempre favoreceu Gal, colocando em primeiro plano a precisão absoluta de seu canto, como fica nítido na maciez com que interpreta “Camisa amarela” (Ary Barroso, 1939).

A maestria de Luiz Meira é igualmente evidenciada em momentos como em “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso, 1939), onde seu violão simula a batucada. A gravação ao vivo reproduz o show na íntegra, preservando as falas de Gal e sua interação com a plateia, como já havia sido antecipado pelo single com “Mulher eu sei” (Chico César, 1995), a única das 24 músicas inédita na discografia de Gal. A artista pede para ouvir o “estalar dos dedos” da plateia para marcar o ritmo do fox-canção “Nada além” (Custódio Mesquita e Mário Lago, 1938), gravado por ela em 1991 em um tributo a Mário Lago.

Após o canto do fox, Gal dialoga com o público e, ao ouvir de uma espectadora que estava “quase enfartando”, responde com serenidade e propósito: “Meu canto não é para isso. Meu canto é para levar alegria, paz, informação, tranquilidade, luz – principalmente luz – para todas as pessoas”. Esta declaração reforça a percepção da luz que emanava de sua performance. Quem poderia negar essa luz ao ouvi-la cair para lá e cá no requebrado do samba “É luxo só” (Ary Barroso e Luiz Peixoto, 1957)?

O show se encerra com outro samba, “Cada macaco no seu galho” (1972), e um bis generoso, onde Gal inverte a ordem para satisfazer o público, cantando de cara o sucesso radiofônico da época, “Socorro” (Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, 1994). No bis, ela ainda dá voz ao samba-canção “Sábado em Copacabana” (Dorival Caymmi e Carlos Guinle, 1951), que só gravaria no ano seguinte, e finaliza a apresentação com “Amor em paz” (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1960), ressaltando que ouviu muito essa canção na adolescência, na voz de João Gilberto. Ao ouvir Gal cantar essa bela canção que renega o sofrimento do amor, é impossível não crer que sua voz trazia paz e irradiava uma luz que parecia vir do céu, de algum lugar da imensidão do universo, pela beleza sobrenatural e imortal do seu canto.

Fonte: Cultura e Arte – G1

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