No intrincado universo da língua portuguesa, poucos desafios se mostram tão persistentes e geradores de dúvidas quanto o emprego correto dos pronomes demonstrativos ‘isto’, ‘isso’ e ‘aquilo’. O que para muitos pode parecer um detalhe trivial, na realidade, reflete uma complexidade gramatical que permeia tanto a comunicação oral quanto a escrita. A poetisa Cecília Meireles, com sua sensibilidade ímpar, já abordava a essência da escolha e da distinção em seu singelo poema ‘Ou isto ou aquilo’, provocando uma reflexão que transcende a mera decisão para tocar as nuances da própria linguagem.
Os pronomes, por definição, assumem o papel crucial de acompanhar ou substituir substantivos, e os demonstrativos, em particular, funcionam como verdadeiros apontadores, estabelecendo a posição de algo no espaço, no tempo ou mesmo dentro da estrutura de um texto. A obra de Meireles, ao mencionar ‘isto’ e ‘aquilo’, não apenas ilustra a dicotomia das escolhas, mas também, de forma subliminar, insinua a noção de distância, um conceito fundamental para a compreensão desses elementos linguísticos.
A regra para o uso espacial é didática e precisa: ‘este’ é empregado para indicar algo que se encontra próximo de quem fala; ‘esse’, para aquilo que está perto do interlocutor, de quem ouve; e ‘aquele’, por sua vez, designa o que está distante de ambos. Esta distinção, embora aparentemente simples, é frequentemente negligenciada, levando a equívocos comuns. É imperativo frisar, por exemplo, que se o falante se encontra no local ao qual se refere, o uso correto é ‘neste’, e não ‘nesse’. Uma sutil, mas significativa, correção que eleva a precisão da comunicação.
Quando a perspectiva se volta para o tempo, os pronomes demonstrativos continuam a desempenhar um papel crucial na demarcação de períodos. ‘Este’ é o pronome eleito para referir-se ao tempo presente, ao ‘agora’, como na expressão ‘Este dia é feito de escolhas’. Já ‘esse’ é reservado para um passado recente, algo que acabou de ocorrer ou que se situa em um período próximo ao momento da fala. Por fim, ‘aquele’ remete a um passado mais remoto, a épocas distantes ou eventos há muito ocorridos, delineando uma linha do tempo clara e inquestionável.
Talvez a aplicação mais refinada e, por vezes, desafiadora, resida no uso dos demonstrativos dentro do próprio texto, onde eles atuam como setas indicativas de ideias e informações. ‘Isto’ e ‘este’ são os pronomes que anunciam o que ainda será dito, introduzindo elementos subsequentes na narrativa ou argumentação. Em contrapartida, ‘isso’ e ‘esse’ têm a função de retomar algo que já foi mencionado, consolidando as ideias apresentadas anteriormente. Essa habilidade de direcionar e amarrar o fluxo textual é essencial para a clareza e coesão de qualquer escrita.
Em síntese, os pronomes demonstrativos transcendem a mera função gramatical; eles são instrumentos de precisão que nos permitem navegar pelas dimensões do espaço, do tempo e do próprio discurso. Dominar seu uso é mais do que uma questão de correção; é uma demonstração de clareza, intencionalidade e domínio da língua. Compreender ‘isto’, ‘isso’ e ‘aquilo’ é desvendar um aspecto fundamental da comunicação que, uma vez assimilado, eleva a qualidade de qualquer interação verbal ou escrita.
Fonte: NOTICIAS – Pleno News