O Dois de Julho, oficialmente reconhecido como o Dia da Independência da Bahia, transcende um mero feriado estadual para se firmar como um marco crucial na trajetória da independência brasileira. Celebrada com fervor no estado da Bahia, esta data é um poderoso símbolo da resistência e da virada definitiva contra o jugo colonial português no país. Recentemente, um projeto de lei aprovado no Senado conferiu uma dimensão nacional ainda maior a essa comemoração, estabelecendo que, de forma simbólica, Salvador se tornaria a capital federal do Brasil durante o feriado, um gesto de profundo reconhecimento à batalha que solidificou a soberania nacional.
A iniciativa legislativa, consubstanciada no projeto de lei 5.672/2025, de autoria do deputado federal Leo Prates (PDT), foi sancionada com o objetivo de relembrar e homenagear a árdua luta que culminou na expulsão das tropas portuguesas da Bahia em julho de 1823, um episódio crucial que antecedeu e complementou a declaração formal de independência de Dom Pedro I em 7 de setembro de 1822. Embora de caráter estritamente simbólico, a transferência temporária da sede do governo federal para a capital baiana, restrita a atos oficiais e sem comprometer serviços essenciais em Brasília, eleva o Dois de Julho a um patamar de relevância histórica e política inquestionável para todo o Brasil.
No cerne das festividades do Dois de Julho estão as figuras emblemáticas do Caboclo e da Cabocla, símbolos de resistência e da vontade inabalável do povo baiano em sua revolta anti-lusitana. O tradicional cortejo, que se inicia no bairro da Liberdade e culmina no Largo do Campo Grande, transporta essas imagens sacras, ecoando as celebrações espontâneas que surgiram após a vitória em 1823. Inicialmente, a representação do Caboclo era feita por uma pessoa viva, contudo, a partir de 1840, estátuas passaram a personificar essas figuras, com a Cabocla frequentemente associada a Catarina Paraguaçu, marcando um período de ressignificação e suavização dos tons mais revoltosos da celebração original.
O aspecto sagrado dessas imagens se consolidou ao longo do tempo, impulsionado pela participação popular no cortejo e pela profunda identificação do público com os símbolos de luta e libertação. Dada a forte presença dos terreiros de candomblé na Bahia, houve uma associação natural entre a figura do Caboclo e as complexas simbologias presentes nas religiões de matriz africana, conferindo-lhes um caráter de divindade popular. Atualmente, é uma tradição enraizada que devotos e participantes do cortejo se dirijam ao Campo Grande para pedir graças e realizar oferendas, predominantemente frutas, aos Caboclos, cujas imagens permanecem no largo por três dias antes de serem solenemente reconduzidas à Lapinha.
Para o historiador Fábio Batista Pereira, mestre em História da África, da Diáspora e dos Povos Indígenas, o reconhecimento e a valorização da data do Dois de Julho são fundamentais para lançar luz sobre a participação muitas vezes marginalizada de negros e indígenas no processo de independência do país. “É uma luta que continua muito presente, muito atualizada por cidadania plena: política, civil e social. O legado da independência da Bahia para os baianos e para os brasileiros é justamente esse”, enfatiza Pereira, ressaltando a dimensão contemporânea da celebração.
Através das imagens do Caboclo e da Cabocla, a festa da independência da Bahia projeta negros e indígenas como protagonistas centrais na libertação do país da opressão colonial portuguesa. Pereira argumenta que a luta pela liberdade na Bahia oferece valiosas lições para o Brasil contemporâneo, especialmente em um cenário de intensos debates políticos sobre a soberania nacional e a consolidação democrática. “O Dois de Julho traz tudo isso à tona. O hino é muito claro: ‘Com tiranos não combinam brasileiros corações’. É uma frase muito forte para aquela época e para os dias de hoje em quem precisamos reafirmar valores democráticos como princípios essenciais da sociedade”, conclui o historiador, sublinhando a perenidade dos ideais de liberdade e justiça.
Fonte: *Google Trends*