Em um desdobramento que reverberou nos corredores do poder em Brasília, Jaques Wagner (PT-BA), recém-afastado da liderança do governo no Senado, concedeu uma entrevista contundente à Folha. O ex-governador da Bahia não poupou críticas à atuação da Polícia Federal na operação que o teve como alvo, especialmente a divulgação de uma fotografia com cédulas de moeda estrangeira apreendidas em seu apartamento na capital federal.
Wagner expressou sua indignação com o que classificou como uma “patacoada” da PF, lembrando o modus operandi da Operação Lava Jato. “Para que aquela patacoada de dinheiro em cima da cama com o escudo da PF?”, questionou, afirmando que a espetacularização desrespeita a orientação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia determinado que a busca e apreensão ocorresse “de forma discreta” e em caráter sigiloso. Para o senador, a Polícia Federal deve “tomar conta” para evitar tal tipo de “espetacularização” em suas ações.
O senador petista fez revelações sobre suas relações com empresários, admitindo contatos rotineiros e até “caronas” em aviões. Ele ironizou a insinuação de que dois ingressos para um show de Taylor Swift para sua neta configurariam favorecimento. “Estão achando que ele me comprou porque arrumou dois ingressos. Eu poderia pedir coisa mais importante, né?”, desafiou, defendendo a normalidade de sua interação com o setor privado. Wagner negou veementemente qualquer “relação de troca” ilícita, enfatizando que “fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento”.
Outro ponto de tensão foi a confirmação de que os valores pagos pelo Banco Master à empresa de sua nora superam os R$ 3,5 milhões inicialmente divulgados. No entanto, Wagner assegurou a legalidade dos repasses, atribuindo-os a um rompimento contratual e negando qualquer envolvimento pessoal na gestão ou benefício direto dos recursos. “Caiu alguma coisa minha aqui? Estou muito tranquilo”, reiterou, enfatizando que os pagamentos são devidamente escriturados e que a empresa recebia “uma grana boa” mês a mês, muito antes do valor do rompimento contratual.
Sobre o afastamento da liderança governista, Wagner detalhou uma conversa pessoal com o presidente Lula. Inicialmente resistente à ideia de entregar o cargo para não ser interpretado como confissão de culpa, ele mudou de opinião após o presidente questionar sua capacidade de lidar simultaneamente com a defesa das acusações e as demandas da liderança. O senador refutou veementemente a ideia de que teria levado a crise para dentro do Palácio, sugerindo que a narrativa da PF busca, na verdade, envolver o Partido dos Trabalhadores, afirmando que “não estou dizendo que foi feito por isso, não. Qual é a narrativa do Flávio Bolsonaro e do PL? ‘Tudo começou na Bahia’. Nada começou na Bahia.”
Questionado sobre a origem do dinheiro em moeda estrangeira encontrado pela PF, Wagner explicou que se tratam de diárias recebidas do Senado e do período em que foi governador, frequentemente solicitadas em dólar como forma de economia e de guarda. Ele contestou a “tese” da PF de que a empresa de sua nora teria sido criada para servi-lo, classificando-a como infundada e assegurando que nada será provado contra ele. Ele também negou ter omitido de Lula sua negociação por um apartamento em construção para sua filha, descrevendo o processo como uma reserva sem fins de corrupção.
O senador concluiu suas declarações reiterando sua postura desafiadora contra a espetacularização das investigações e a “condenação a priori” promovida pela divulgação de imagens. Ele reforçou que a concretização do Banco Master, pivô do escândalo, ocorreu durante o governo Bolsonaro, buscando desvincular a responsabilidade de sua gestão e do PT. “Eu não estou pedindo que não me investiguem, só estou dizendo para não fazer a patacoada que fazem”, finalizou, indicando que o impacto sobre Lula será mitigado pela sua própria defesa pública e que a verdade prevalecerá nos tribunais.
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