Juliana Linhares, cantora, compositora e atriz potiguar, reafirma sua posição como um dos nomes proeminentes da música brasileira contemporânea com o lançamento de seu segundo álbum solo, “Até cansar o cansaço”. Avaliado com cinco estrelas, o disco, produzido por Elisio Freitas com direção artística de Marcus Preto, emerge como uma obra conceitual que não apenas biza o brilhantismo de seu antecessor, “Nordeste ficção” (2021), mas o aprofunda ao confrontar um tema universal e premente: o estado de exaustão permanente da humanidade. A própria canção-título, que abre o álbum, já lança o mote: “Vamos dançar / Até cansar o cansaço / Até que vire do avesso / Até um novo começo”.
O álbum “Até cansar o cansaço” se distingue por sua capacidade de espelhar as inquietações de um mundo cada vez mais pautado pela tecnologia, onde corpos e almas adoecem em meio à ansiedade e à depressão. Inspirada por vivências com o renomado neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro durante uma residência artística na Cia Brasileira de Teatro, Linhares tece uma narrativa que, ao longo de 11 faixas, não apenas diagnostica essa exaustão, mas também aponta caminhos e saídas para transcender a sina do cansaço, mantendo uma coesão lírica e musical notável.
A busca por superação e por um novo alento é vislumbrada em faixas como “Depois do breu”, parceria de Juliana Linhares com Rafael Barbosa. A canção, introduzida pela doçura da sanfona de Zé Hilton, expressa um desejo onírico de transformação: “Puxa pela mão / Chama pra dançar / Rasga pelo céu / Derretendo o chão / Faz tempo parar / E tudo flutuar”. Essa faixa, que antecedeu o lançamento do álbum como single, também ressalta a forte ligação da artista com uma linhagem feminina de cantoras e compositoras nordestinas, como Elba Ramalho, Marinês e Anastácia, solidificando sua identidade artística.
A colaboração é um pilar no álbum, enriquecendo sua tapeçaria sonora e temática. O feat com Anastácia no baião “Vida virada” (Juliana Linhares, Josyara e Elisio Freitas) é um sopro de vida, percutido pela zabumba e triângulo de Gabriel Silva, que traduz a urgência do tempo e a crítica ao incessante ciclo de trabalho: “Ah, eu me cansei / Dе trabalhar pra conquistar o tal descanso que nunca se paga / Ah, preciso ir / Antes que a dívida do tempo cobre as horas em que fiquei sentada”. O afeto e a conexão humana surgem como antídoto no xote “Tanto buliço”, gravado com Agnes Nunes, que narra: “Deixei de lado a solidão / Chorei e vi brotar do chão / Um gosto bom de futuro”. A vivacidade do forró contemporâneo também permeia o disco, como em “Mistério do óbvio”, com Ney Matogrosso, que, apesar da leveza rítmica, toca em questões existenciais profundas.
Contudo, o álbum não foge da realidade mais dura. A acidez e a profundidade lírica se manifestam em canções como “Emaranhada”, de Juliano Holanda, já gravada pelo autor e aqui reinterpretada por Juliana com maestria. Os versos complexos, que abordam desde a dicotomia entre doçura e salgado até a desilusão com o progresso e a alienação, são entregues com a firmeza de seu canto agudo. Similarmente, “Tempos temporais”, parceria de Linhares com Holanda, explora a melancolia e a esperança em versos como “Se eu disser que ainda dá pro gás / Que vou contigo ainda um pouco mais / E que existe um sol na solidão / Algo entre o ir e vir, o céu e o chão”, valorizados por um arranjo delicado com sanfona de Bebê Kramer e violoncelo de Federico Puppi.
Faixas como “Conseguiram, parabéns”, de Manduka, e a regravação de “A palo seco”, de Belchior, ambas com atmosfera rocker, radiografam o estado calamitoso de um mundo dominado pelo poder e suas consequências. No entanto, o desfecho do álbum com “Futuro (Novos erros) + Oração pro sonho”, parceria de Juliana com Carlos Posada, traz um aconchego e lirismo que suavizam o tom, preparando o terreno para a esperança de um futuro onde o canaço seja finalmente vencido. Em sua totalidade, “Até cansar o cansaço” se impõe como uma obra-prima e um clássico imediato da discografia brasileira, por sua capacidade de retratar a humanidade à beira de um ataque de nervos, mas com um persistente sopro de esperança em dias melhores.
Fonte: Cultura e Arte – G1