O renomado artista pernambucano Lenine fez um retorno triunfal aos palcos da capital paulista no sábado, 30 de maio, apresentando o aclamado show homônimo do álbum e filme “Eita” (2025). Após um período de reclusão em que a possibilidade de abandonar os palcos chegou a ser cogitada, o cantor irradiou uma emoção palpável, traduzida em falas diretas ao público do Tokyo Marine Hall. Este espetáculo não apenas resgata o artista para a cena musical brasileira, mas também expande a complexa “teia de afetos” tecida em seu trabalho mais recente, consolidando-se como um marco significativo em sua trajetória.
A performance foi iniciada de forma enigmática com o canto em off da faixa “Aos domingos” (2025), enquanto os músicos Bruno Giorgi (baixo e direção musical), Gabriel Ventura (guitarra), Henrique Albino (sopros), Negadeza (percussão) e Pantico Rocha (bateria) ocupavam seus lugares no palco. O roteiro, inteiramente autoral, destacou-se pela enfática identidade sonora que é a marca registrada de Lenine, onde a execução e o arranjo de cada composição parecem ter um peso tão ou mais relevante do que a própria canção em sua forma bruta. Essa abordagem técnica e artística sublinhou a maturidade e a profundidade de sua obra.
Com a entrada de Lenine no palco, a energia se intensificou. A primeira canção a ser interpretada pelo artista foi “Confia em mim” (Lenine e Dudu Falcão, 2025), que já revelou a imponente cadência percussiva de seu violão. Em seguida, “Eu sou meu guia”, uma parceria com Bráulio Tavares lançada no álbum “Na pressão” (1999), reforçou o discurso de autonomia artística. Sob a direção musical de Bruno Giorgi, os arranjos foram meticulosamente orquestrados para criar um som “na pressão”, que impulsionou faixas como “O último pôr do sol” (Lenine e Lula Queiroga, 1993) e “Miragem do porto” (Lenine e Bráulio Tavares, 1992), esta última imortalizada na voz de Elba Ramalho, que historicamente abriu portas para o cancioneiro do artista antes de sua ascensão ao reconhecimento nacional.
A forte conexão de Lenine com suas raízes pernambucanas, embora desprovida de ranços tradicionalistas, ressoou intensamente ao longo da noite. A efervescência de sua terra natal foi evocada no canto da “Ciranda praieira” (Lenine e Paulo César Pinheiro, 2008) e no contagiante baque do maracatu ativista “O rumo do fogo” (Lenine e Lula Queiroga, 2025), momento em que o próprio Lenine assumiu as maracas. A flauta de pífanos de Caruaru, habilmente soprada por Henrique Albino em “Meu xamego” (2025), adicionou uma camada nostálgica e autêntica, embora o romantismo inerente à melodia tenha sido, em alguns momentos, sutilmente abafado pela intensidade sonora do conjunto.
À medida que o roteiro do show “Eita” avançava, incluindo composições como “Todas elas juntas num só ser” (Lenine e Carlos Rennó, 2004), marcada por sua ambiência rocker e peso sonoro, e “Escrúpulo” (Lenine e Lula Queiroga, 1992), a identidade musical de Lenine se solidificava de maneira irrefutável. Essa soberania autoral não surpreende, pois é um pilar constante em sua discografia e apresentações ao vivo, que raramente dão espaço para interpretações de obras alheias. A única exceção notável foi a habitual e bem-vinda citação de “Chiclete com banana” (Gordurinha e Almira Castilho, 1958) durante a execução de “Jack soul brasileiro” (1999), um tributo ao mestre do ritmo Jackson do Pandeiro.
O “momento de intimidade”, caracterizado por um set de voz e violão, trouxe uma pausa lírica, embora a grandiosidade de “Foto de família” (Lenine e João Cavalcanti, 2025) tenha sido, segundo a crítica, atenuada neste bloco. Este segmento, dedicado a baladas como “Paciência” (Lenine e Dudu Falcão, 1999), “É o que me interessa” (Lenine e Dudu Falcão, 2008), que se destacou como um dos pontos altos interpretativos, e “Leve e suave” (2018), mostrou a faceta mais introspectiva do artista. Contudo, considerando a relevância da “Foto de família” no panorama emocional do álbum “Eita”, a canção poderia ter recebido um tratamento mais distintivo no show para realçar sua beleza intrínseca.
O espetáculo também se tornou um veículo para a reafirmação do discurso político de Lenine, especialmente evidente na sequência de músicas que seguiram as faixas do álbum “Eita”, como “Malassombro” (Lenine e Siba, 2025), “Boi Xambá” (2025) e a imperativa “Deita e dorme” (Lenine e Arnaldo Antunes, 2025). Canções como “Envergo, mas não quebro” (Lenine e Carlos Rennó, 2011), “A balada do cachorro louco (Fere rente)” (Lenine, Lula Queiroga e Chico Neves, 1997), “O dia em que faremos contato” (Lenine e Bráulio Tavares, 1997), “Rosebud (O verbo e a verba)” (Lenine e Lula Queiroga, 2001) e “Rua da passagem (Trânsito)” (Lenine e Arnaldo Antunes, 1999) encadearam-se, reforçando a tomada de posição do artista.
A defesa da democracia, um tema recorrente na obra de Lenine, foi explicitamente enfatizada com bom humor durante a apresentação dos músicos. Posicionando-os no palco à direita e à esquerda, o cantor sublinhou que, independentemente da localização física, todos estavam alinhados em uma mesma posição política, transmitindo uma mensagem de união e coerência ideológica. Assim, entre a delicadeza dos afetos explorados em suas letras e a firmeza de suas convicções ideológicas, o show “Eita” progrediu em um ritmo contínuo, mantendo o fôlego e a intensidade do início ao fim.
O bis foi aberto com a atmosfera envolvente de “Beira” (Lenine e Gabriel Ventura, 2025), um número climático apresentado apenas com a voz de Lenine e a guitarra de Gabriel Ventura. Em seguida, “O homem dos olhos de raio x” (Lenine, 2000) precedeu o aguardado hit “Hoje eu quero sair só” (Lenine, Mu Chebabi e Caxa Aragão, 1995), sempre uma das músicas mais pedidas pelo público. Esta canção, que ganhou notoriedade na voz de Daúde dois anos após Lenine chamar a atenção com “Olho de peixe” (1993), assinado com Marcos Suzano, e dois anos antes de lançar seu primeiro álbum solo, “O dia em que faremos contato” (1997), encerrou a noite com chave de ouro.
O espetáculo “Eita” em São Paulo, que incluiu as 11 músicas do álbum homônimo e um total de 31 composições, reafirmou a maestria de Lenine em delinear uma marca sonora autoral singular. Ele não apenas entregou uma performance memorável, que ressoa a fundo com sua jornada artística, mas também, de forma cativante e envolvente, expandiu a “teia de afetos” do disco e filme de 2025 para o palco, conectando-se profundamente com sua audiência e consolidando seu legado como um dos grandes nomes da música brasileira contemporânea. A crítica de 4,5 estrelas reflete a excelência do que foi apresentado.
Fonte: Cultura e Arte – G1