O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinalizou nesta terça-feira (19) a intenção de considerar as particularidades de cada setor econômico antes de promover o fim da escala de trabalho 6×1 de forma impositiva. A declaração foi feita em um evento de grande relevância para o setor produtivo, o Encontro Internacional da Indústria da Construção (EBIC), realizado em São Paulo, onde Lula se dirigiu a representantes empresariais.
Em seu discurso, o presidente enfatizou a necessidade de uma abordagem flexível. “A jornada de trabalho vai ser aplicada levando em conta a especificidade de cada categoria. Ninguém vai impor isso na marra. É preciso respeitar a realidade de cada categoria, de cada profissão, de cada setor econômico, para fazer as coisas resultarem no benefício que nós queremos para a sociedade brasileira”, afirmou Lula, buscando tranquilizar os empresários.
Dirigindo-se especificamente ao setor da construção civil, Lula destacou o desempenho recorde nas concessões de crédito imobiliário e aconselhou os empresários a não se alarmarem com a perspectiva de redução da jornada de trabalho. Para ele, trata-se de uma medida “necessária” para garantir mais tempo de lazer, estudo e convívio familiar aos trabalhadores. O presidente também aproveitou a oportunidade para criticar a burocracia enfrentada pelos cidadãos no acesso a financiamentos pela Caixa Econômica Federal, sugerindo ser esse o principal entrave para uma adesão mais ampla.
Paralelamente à postura conciliatória do presidente, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (PSOL), tem adotado um tom mais incisivo, especialmente nas redes sociais, onde parece atuar como um porta-voz mais direto da militância. Boulos contestou veementemente a ideia de compensações financeiras às empresas pela redução da jornada de trabalho.
Na semana passada, Boulos argumentou que tal discussão seria “não razoável”. “A gente tem visto um debate sobre compensações. Neste caso, gente, elas não são razoáveis. Alguém chegou a propor compensação para as empresas quando há aumento de salário mínimo no Brasil? Não, não seria razoável. Se alguém propusesse isso talvez fosse alvo de chacota”, declarou o ministro, comparando a situação ao reajuste do salário mínimo, para o qual não há pleito de compensação empresarial.
No Congresso Nacional, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata do fim da escala 6×1 segue em tramitação na comissão especial. Parlamentares estão em fase de negociação para ajustar o texto antes de sua apreciação em plenário. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), manifestou apoio à medida e expressou o desejo de que ela seja implementada ainda no primeiro semestre do corrente ano.
A oposição ao governo tem se mostrado crítica à proposta. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), enfatizou a necessidade de que qualquer discussão sobre o tema garanta a manutenção do poder de compra dos trabalhadores. Adicionalmente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato à Presidência da República, propôs uma alternativa que prevê maior flexibilidade, com a remuneração por hora trabalhada, como forma de adaptação às diversas realidades setoriais.
Fonte: POLÍTICA – Gazeta do Povo