Em uma carta aberta direcionada à primeira-dama Janja, a articulista Verônica Bareicha, conhecida por sua coluna sobre língua portuguesa, fez uma pausa em sua temática usual para abordar uma dor profundamente pessoal e coletiva: o luto decorrente da pandemia de Covid-19. A autora revelou uma trágica coincidência com Janja: a perda de suas mães para a mesma doença, utilizando o termo “arrancada” para descrever a intensidade da perda, assim como a primeira-dama em seu próprio relato.
Bareicha compartilhou a intimidade de seu relacionamento com a mãe, carinhosamente chamada de “minha velhinha”, e o impacto do Dia das Mães na ausência dela. A sanção de um Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19, seguida do discurso de Janja, serviu como catalisador para a sua reflexão. A articulista expressou a sensação de que a sociedade fala pouco sobre a Covid-19 e que o luto foi uma experiência avassaladora, que a deixou “maluquinha”, mesmo antes do falecimento da mãe.
A autora discute a tendência humana de buscar um culpado em momentos de infortúnio, querendo direcionar a raiva e a desesperança. No entanto, ela questiona essa abordagem em relação à pandemia, que descreve como um “evento natural”. Bareicha confronta as colocações de Janja sobre incentivos ao não uso de máscaras, a falta de vacinas e a desinformação. Ela compartilhou sua experiência pessoal, na qual, apesar de ter tomado todas as precauções e de sua mãe ter recebido as duas doses da vacina Coronavac quando o “pior da pandemia” parecia ter passado, a doença atingiu sua família, levando sua mãe e internando seu pai na UTI.
Verônica Bareicha enfatiza que “não dá para culpabilizar ninguém” diante da vastidão da pandemia, que ceifou milhões de vidas globalmente. Ela recorda os primeiros dias da doença, quando o conhecimento era escasso sobre prevenção e tratamento, e os familiares saudosos da Europa, que também não tinham culpados para sua dor. Em uma crítica direta à politização do luto, a articulista afirma que “não há culpados” e que a dor da perda não pode ser reduzida a uma agenda política. Ela relata que, após cinco anos da partida da mãe, conseguiu retomar a vida, mas com a certeza de que não pode culpar ninguém pela gestão de um “vírus horroroso”.
A articulista conclui sua carta com um apelo a Janja para que reflita se a morte de sua mãe foi culpa de um presidente ou de uma tragédia global incontrolável. Bareicha revela que sua própria dor se transformou em saudade, não em militância, e que a transformação do luto coletivo em disputa política não ressuscita ninguém. Para ela, a pandemia remete à memória de sua mãe, à falta que faz e ao silêncio que ficou, unindo-a a inúmeras famílias que carregam a mesma saudade. Ela finaliza afirmando que algumas dores são “humanas demais para caber em discursos políticos” e expressando oração para todos os que perderam entes queridos, lembrando que o vírus não escolheu suas vítimas por filiação política.
Fonte: NOTICIAS – Pleno News