A teledramaturgia brasileira perde um de seus mais prolíficos e influentes nomes. Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, conhecido carinhosamente como Maneco, faleceu neste sábado (10), aos 92 anos, na cidade do Rio de Janeiro. O renomado autor, responsável por algumas das novelas mais marcantes da televisão nacional, estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, onde recebia tratamento para complicações decorrentes da Doença de Parkinson, condição que, no último ano, afetou significativamente seu desenvolvimento motor e cognitivo.
A triste notícia foi confirmada pela família do autor e pela produtora Boa Palavra, por meio de uma nota oficial. O comunicado expressou profundo pesar e informou que o velório será de caráter privado, restrito a familiares e amigos íntimos, um pedido da família que busca privacidade e respeito neste momento de luto. Manoel Carlos deixa um legado imensurável, eternizado por tramas que capturaram a essência da vida urbana carioca e, em especial, pela criação das inesquecíveis protagonistas femininas que atendiam pelo nome de Helena.
Em reconhecimento à magnitude de sua obra, a Rede Globo, emissora onde Manoel Carlos construiu grande parte de sua carreira, prepara uma série de homenagens. Além de matérias especiais em seus programas jornalísticos e de entretenimento, será reexibido o programa ‘Tributo – Manoel Carlos’ logo após a estreia do BBB 26, na próxima segunda-feira, dia 12. O especial reúne um elenco estelar de atores e atrizes que deram vida a personagens marcantes de suas histórias, como Carolina Dieckmann, Susana Vieira, Alinne Moraes, Antonio Fagundes, Deborah Secco, Tony Ramos, Gabriela Duarte, Lilia Cabral, Mateus Solano, Mel Lisboa, Vera Holtz e Vivianne Pasmanter, que revisitam os sets de gravação e os bastidores compartilhados, enaltecendo a genialidade de Maneco.
Nascido em 14 de março de 1933, em São Paulo, Manoel Carlos era filho do comerciante José Maria Gonçalves de Almeida e da professora Olga de Azevedo Gonçalves de Almeida. Sua paixão pelas artes e pela narrativa manifestou-se precocemente. Aos 14 anos, já era frequentador assíduo da Biblioteca Municipal de São Paulo, onde integrava o grupo ‘Os Adoradores de Minerva’, dividindo leituras e debates com uma geração que viria a moldar a cultura brasileira, incluindo nomes como Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Fábio Sabag, Flávio Rangel e Antunes Filho.
Um dos pioneiros da televisão brasileira, Maneco iniciou sua trajetória nos estúdios da TV Tupi aos 17 anos. Seu talento foi rapidamente reconhecido, sendo eleito ator revelação no ano seguinte. Sua formação artística e profissional foi intensa, passando pela TV Record, TV Itacolomi (Belo Horizonte), TV Rio e novamente pela TV Tupi do Rio de Janeiro. Nesse percurso, atuou como ator, diretor e adaptou mais de cem teleteatros, absorvendo a urgência e a poesia da dramaturgia televisiva. Na década de 1960, colaborou com as últimas produções da TV Excelsior, período em que dividiu cena e criação com figuras como Chico Anysio, Ziraldo e Mário Tupinambá, consolidando uma carreira pautada pela experimentação e pelo encontro com grandes mestres.
Sua chegada à Rede Globo em 1972 marcou o início de uma era. Inicialmente como diretor-geral do ‘Fantástico’, Manoel Carlos aprofundou sua percepção da realidade e do comportamento humano. Sua primeira novela na emissora foi ‘Maria, Maria’, em 1978. Foi, no entanto, a partir de suas ‘Helenas’ que Maneco se consagrou. Ele criou personagens femininas complexas, fortes e, por vezes, contraditórias, que amavam e erravam com a mesma intensidade. De Regina Duarte a Vera Fischer, de Christiane Torloni a Taís Araúja, de Maitê Proença a Julia Lemmertz, suas Helenas e as demais figuras femininas de suas tramas abordaram sentimentos como culpa, desejo, maternidade e redenção, marcando gerações.
A assinatura autoral de Manoel Carlos era inconfundível. Suas tramas se desenrolavam no ritmo da vida real, com longas conversas à mesa, caminhadas pela orla do Leblon e conflitos que emergiam de pequenos gestos. Cenas icônicas, como a troca de bebês em ‘Por Amor’, a luta de Camila contra o câncer em ‘Laços de Família’ – que gerou um aumento expressivo nas doações de medula óssea no país – e os diálogos maduros de ‘Mulheres Apaixonadas’, que abordaram temas como violência doméstica, envelhecimento e intolerância, ficaram gravadas na memória coletiva. Sem discursos fáceis, ele deu voz a dores silenciosas, impulsionando debates nacionais sobre amor, família, ética e responsabilidade afetiva, inclusive contribuindo para a conscientização que antecedeu a consolidação do Estatuto do Idoso.
A vida de Manoel Carlos também foi marcada por perdas pessoais profundas. Ele enfrentou o falecimento de três de seus cinco filhos em idades precoces: Ricardo de Almeida, em 1988, vítima de complicações relacionadas ao HIV; Manoel Carlos Júnior, em 2012, após um ataque cardíaco; e Pedro Almeida, em 2014, devido a um mal súbito. O autor deixa as filhas Maria Carolina, escritora e roteirista, e Júlia Almeida, atriz.
Seu último trabalho como autor de novela foi ‘Em Família’, exibida em 2014, encerrando uma trajetória de mais de seis décadas dedicadas à arte de contar histórias. Manoel Carlos deixa um legado de sensibilidade e um olhar apurado para as relações humanas, transformando o bairro do Leblon em um personagem onipresente em suas narrativas e suas novelas em um espelho delicado da complexidade da vida.
Fonte: [FOFOCAS] RD1 NOTICIAS