Morre Guto Graça Mello, produtor de Xuxa e Globo, aos 78

O cenário musical brasileiro perdeu uma de suas figuras mais influentes com a morte do produtor musical e compositor Guto Graça Mello, nesta terça-feira (5), no Rio de Janeiro, aos 78 anos. A causa do falecimento foi uma parada cardiorrespiratória, conforme informado por familiares. Graça Mello foi um nome central na construção da identidade sonora da TV Globo e da gravadora Som Livre, assinando sucessos que atravessaram gerações, desde a icônica abertura do “Fantástico” até a consolidação de fenômenos populares como o “Xou da Xuxa”.

Um dos marcos mais notáveis de sua carreira comercial ocorreu em 1986, quando Guto Graça Mello aceitou o desafio de produzir o álbum de estreia de Xuxa para a Som Livre. Apesar de ter inicialmente expressado ao então presidente da gravadora, João Araújo, que a apresentadora “não era cantora”, a resposta foi categórica: “Se vira”. Em entrevistas, Guto relembrou o episódio: “Fui apresentado a ela e pedi para cantar. Percebi que ela não conseguia dar uma única nota. Contei para o João e ele disse: ‘Inventa um disco’”.

Superando a resistência inicial de alguns compositores, Guto Graça Mello orquestrou um projeto grandioso, mobilizando talentos renomados para o disco “Xou da Xuxa”. O álbum incluiu parcerias notáveis como “Peter Pan”, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, e “Garoto Problema”, de Frejat e Guto Goffi, além de versões de Ronaldo Bastos para clássicos de Stevie Wonder, como “Miragem Viagem”. O produtor também recorreu a improvisos que se tornaram hinos, como “Quem Qué Pão”, criado por uma assessora de imprensa da gravadora em uma brincadeira para os filhos. O álbum, que imortalizou sucessos como “Doce Mel (Bom Estar com Você)”, vendeu cerca de 3 milhões de cópias.

Sua influência na televisão brasileira é igualmente inegável. Guto Graça Mello assumiu a direção musical da Globo no início dos anos 1980, após um período de estudos na Universidade de Berkeley, Califórnia, incentivado por Boni. Na emissora, ele coordenou as trilhas de novelas icônicas como “Gabriela”, “Pai Herói” e “Pecado Capital”. A composição do tema de abertura de “Pecado Capital”, por exemplo, foi feita por Paulinho da Viola em apenas um dia, a pedido de Guto, demonstrando sua capacidade de extrair o melhor dos artistas.

Na Som Livre, Guto Graça Mello também exerceu um papel crucial como um “caça-talentos” discreto. Em suas equipes de assistência na gravadora, figuraram jovens que se tornariam pilares do rock nacional: Cazuza, que atuava na assessoria de imprensa, e Lulu Santos, responsável por analisar fitas cassete de novos artistas, ambos sob a supervisão do produtor. Sua visão aguçada permitiu que esses talentos emergissem e moldassem a música brasileira nas décadas seguintes.

Com uma discografia impressionante de quase 400 álbuns produzidos ao longo da carreira, a atuação de Guto não se restringiu à televisão e à música. Ele também deixou sua marca no cinema, assinando a trilha sonora de mais de 30 longas-metragens, incluindo produções de destaque como “Cazuza – O Tempo Não Para”, “Se Eu Fosse Você” e “Nosso Lar”. Nos anos 1990, colaborou com grandes nomes da MPB, como Maria Bethânia e Roberto Carlos. Guto Graça Mello deixa um legado de inovação na produção fonográfica brasileira, tendo sido um dos primeiros a compreender a música não apenas como arte, mas como um elemento fundamental da narrativa audiovisual e do mercado de massa no Brasil.

Fonte: Cultura e Arte – G1

Leave a Comment