Isaac Newton, um nome que ressoa como pilar inabalável da ciência moderna, é universalmente celebrado por feitos que redefiniram nossa compreensão do universo. No século XVII, suas contribuições, como a formulação da Lei da Gravitação Universal e o estabelecimento das bases da mecânica clássica por meio de suas Leis do Movimento, não apenas moldaram a física, mas pavimentaram o caminho para o mundo tecnológico e racional que hoje habitamos. Além disso, a engenhosidade por trás da construção do primeiro telescópio refletor prático sublinha a amplitude de seu gênio. Contudo, por trás da figura imponente do cientista, existia um “lado B” consideravelmente mais complexo e, em certos aspectos, perturbador.
Essa faceta menos conhecida vem à tona por meio de um de seus cadernos pessoais, um documento singular preservado até os dias atuais. Nele, Newton não se limitava a registrar intrincados problemas matemáticos, mas também consignava reflexões íntimas, revelando as profundezas de sua alma. Dentre essas anotações, destaca-se uma lista notável de 57 pecados que o próprio Isaac Newton confessou ter cometido. Escrita em 1662, quando ele tinha apenas 19 anos e era estudante em Cambridge, a lista oferece um vislumbre cru e sem filtros de sua juventude.
A lista de transgressões é um amálgama intrigante do comum e do surpreendente. Alguns “pecados” são típicos de um adolescente em formação: gula, a negligência em frequentar a igreja ou as irritações banais com membros da família. No entanto, o rol de confissões rapidamente mergulha em atos de uma gravidade inesperada. Newton admite ter agredido diversas pessoas, incluindo sua própria irmã, roubado comida e, em um arroubo juvenil, chegado a ameaçar incendiar a casa com seus pais dentro. Detalhes curiosos, como ter colocado um alfinete no chapéu de um conhecido “para irritá-lo”, pintam um retrato de um jovem com uma intensidade emocional e, por vezes, uma inclinação para a malícia.
É fundamental contextualizar essa lista no fervor religioso de Newton. As anotações são dirigidas diretamente a Deus, utilizando as formas “Sua” e “Você” para se referir à divindade. Newton era um homem de fé profunda, beirando o fanatismo, e adepto do arianismo, uma doutrina cristã que se opunha a certos dogmas da Igreja Católica da época. Sua devoção ia além da mera observância: ele nutria um fascínio particular pelo Rei Salomão e dedicou uma parte significativa de sua vida ao estudo exaustivo da Bíblia, numa tentativa quimérica de calcular a data exata do retorno de Cristo à Terra.
O documento é segmentado em duas partes, cronologicamente distintas: “Antes de Whitsunday 1662” e “Desde Whitsunday 1662” (sendo Whitsunday o termo em inglês antigo para o Domingo de Pentecostes). A interpretação dessas passagens, conforme alertam os estudiosos, é um desafio. O texto contém expressões do inglês do século XVII que caíram em desuso, tornando certas seções de difícil decifração. Além disso, em muitas confissões, Newton opta por não oferecer contexto, deixando os pesquisadores a especular sobre os detalhes de cada incidente. O minucioso trabalho de transcrição desses manuscritos foi realizado pelo The Newton Project, uma iniciativa dedicada a reunir e digitalizar a vasta coleção de escritos do cientista.
A profundidade e a peculiaridade das confissões de Newton revelam um homem complexo, cujas lutas internas contrastam vividamente com a serenidade e a lógica de suas contribuições científicas. Uma amostra traduzida de seus “pecados” oferece um panorama dessa dualidade:
Antes de Whitsunday 1662:
– Usar a palavra (Deus) abertamente
– Comer uma maçã em Sua casa [que seria uma igreja ou lugar de culto religioso]
– Produzir uma pena [plumas mergulhadas na tinta que eram utilizadas para escrever na época] em Seu dia [provavelmente se refere ao domingo, dia sagrado para os cristãos]. Negar que eu fiz isso
– Produzir uma ratoeira no Seu dia
– Criar uma melodia com sinos no Seu dia
– Esguichar água no Seu dia
– Fazer tortas no domingo à noite
– Nadar na banheira no Seu dia
– Colocar um alfinete no chapéu de Iohn Keys para irritá-lo, no Seu dia
– Ouvir sem cuidado e com pouca atenção vários sermões [discursos religiosos]
– Me recusar a ir ao the close [expressão que se refere a um espaço fechado, que pode ser um curral, por exemplo] a pedido de minha mãe
– Ameaçar minha mãe e meu pai a queimar eles e a casa
– Desejar a morte e esperar que ela aconteça com alguém
– Bater em várias pessoas
– Ter pensamentos, palavras, ações e sonhos impuros
– Roubar pães recheados de cereja do Eduard Storer
– Negar que eu fiz isso
– Negar uma besta [instrumento de atirar flechas] para a minha mãe e avó, apesar de saber onde ela estava
– Colocar meu coração mais no dinheiro, no aprendizado e no prazer do que em Você
– Ter uma recaída
– Ter uma recaída
– Quebrar novamente minha promessa renovado na Ceia do Senhor
– Dar um soco na minha irmã
– Roubar a caixa de ameixas e açúcar da minha mãe
– Chamar Dorothy Rose de jade [xingamento da época]
– Ter gula quando estou doente
– Irritar-me muito fácil com a minha mãe
– E com a minha irmã
– Brigar com os serventes
– Cometer atos errados ao longo das minhas tarefas
– Ter conversas fúteis no Seu dia e em outros momentos
– Não me aproximar mais de Você em meus afetos
– Não viver de acordo com a minha crença
– Não te amar por Você mesmo
– Não te amar pela Sua bondade conosco
– Não desejar as Suas regras
– Não ansiar por ti em [o resto desse tópico é ilegível]
– Temer os homens acima de Deus
– Usar meios ilícitos para nos tirar de situações de aflição
– Me importar mais com coisas mundanas do que com Deus
– Não almejar uma benção de Deus em nossos esforços honestos
– Não ir à capela
– Bater no Arthur Stroher
– Ter me irritado na Master Clarks por causa de um pedaço de pão e manteiga
– Tentar enganar alguém com uma moeda falsa
– Torcer uma corta no domingo de manhã
– Ter lido a história de campeões cristãos no domingo
Desde Whitsunday 1662:
– Gula
– Gula
– Usar a toalha do Wilford para poupar a minha
– Ser negligente na capela
– Sermões na Santa Maria (4)
– Mentir sobre piolho
– Se recusar a contar a meu colega de quarto quem chamou ele de bobo
– Me negar a rezar (3)
– Ajudar Petit a fazer seu relógio de água às 12 horas de um sábado à noite
Este olhar íntimo sobre os dilemas morais e as imperfeições juvenis de Isaac Newton serve como um poderoso lembrete de que, mesmo as mentes mais brilhantes e transformadoras da história, eram, em sua essência, seres humanos complexos, repletos de contradições e em constante busca por compreensão – tanto do universo exterior quanto de seu próprio mundo interior.
Fonte: Super Interessante



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