A Polícia Federal (PF) identificou um padrão de viagens coordenadas entre Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, apelidado de Careca do INSS, para destinos europeus como Madri e Lisboa. Documentos obtidos pela investigação revelam que os dois estiveram nas capitais europeias em pelo menos três ocasiões coincidentes, em um período que coincide com o auge da chamada ‘Farra do INSS’. As descobertas são parte da Operação Sem Desconto, que apura um complexo esquema de fraude em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
As evidências coletadas pela PF apontam para um meticuloso arranjo logístico, incluindo voos em primeira classe e períodos de permanência nos mesmos destinos. A primeira viagem documentada ocorreu em junho de 2024, com Lulinha e a empresária Roberta Luchsinger partindo de Guarulhos (SP) para Lisboa em 13 de junho. Quatro dias depois, em 17 de junho, Careca do INSS embarcou do mesmo aeroporto para a capital portuguesa. Lulinha e Roberta retornaram ao Brasil em 18 de junho, enquanto Careca do INSS o fez em 21 de junho. O segundo episódio se deu em setembro de 2024, com Careca do INSS viajando para Madri em 12 de setembro e, no dia seguinte, Lulinha e Roberta também seguindo para a capital espanhola. A última coincidência registrada foi em novembro de 2024, quando Lulinha e Careca do INSS voaram juntos de Guarulhos para Lisboa em 8 de novembro. Um detalhe que chamou a atenção dos investigadores foi a aquisição das passagens para esta última viagem com apenas quatro minutos de diferença, o que reforçaria os indícios de coordenação entre os investigados.
A empresária Roberta Luchsinger, apontada como intermediária e amiga de Lulinha, esteve presente em duas das três viagens identificadas, reforçando a complexidade do vínculo entre os envolvidos. Embora em algumas ocasiões não tivessem assentos contíguos, como Lulinha no assento 7F e Roberta no 7A em um dos voos para Lisboa, a sincronia de seus deslocamentos e a escolha por voos em categorias de alto padrão, como a primeira classe, sugerem uma intencionalidade nas agendas. Os destinos internacionais e a frequente presença da empresária adicionam camadas à investigação sobre a natureza desses encontros e suas possíveis relações com as atividades ilícitas apuradas no âmbito da ‘Farra do INSS’.
O propósito de algumas dessas viagens foi parcialmente desvendado por um ex-funcionário de Antonio Carlos Camilo Antunes, que atuou na World Cannabis. Em depoimento à Polícia Federal, a testemunha afirmou que Careca do INSS e Lulinha viajaram juntos para discutir negócios relacionados à maconha medicinal, um nicho de mercado no qual o lobista manifestava interesse em ingressar. As viagens de Antonio Carlos Antunes a Portugal, em particular, foram diretamente ligadas a essas empreitadas no mercado europeu de cannabis, conforme a investigação. Essa conexão empresarial, que envolve um setor emergente e regulamentado, adiciona uma nova dimensão aos encontros entre os investigados e a amplitude das atividades apuradas.
Lulinha, Careca do INSS e Roberta Luchsinger são peças-chave na Operação Sem Desconto, que investiga a fraude de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. Antonio Carlos Camilo Antunes é considerado o pivô do escândalo, enquanto Roberta Luchsinger é apontada como o elo entre ele e Fábio Luís. A PF detectou transferências financeiras significativas, incluindo um montante de R$ 1,5 milhão enviado por Careca do INSS a Roberta Luchsinger. Em uma dessas transações, o lobista teria justificado o repasse como sendo para ‘o filho do rapaz’, uma expressão que, segundo a análise policial, possivelmente se referia a Fábio Luís Lula da Silva, levantando sérias questões sobre a natureza desses pagamentos e a extensão da rede de influência.
A defesa de Fábio Luís Lula da Silva, por meio do advogado Guilherme Suguimori, tem negado veementemente qualquer envolvimento do seu cliente na fraude do INSS. O advogado reitera que Lulinha não é sócio oculto de Careca do INSS e que nunca recebeu valores do empresário. Por sua vez, Roberta Luchsinger e Careca do INSS também teriam tentado exercer lobby junto ao Ministério da Saúde, visando favorecer os interesses de uma empresa de tecnologia e da World Cannabis. Roberta Luchsinger, neta do falecido banqueiro suíço Peter Paul Arnold Luchsinger, ganhou notoriedade anteriormente ao prometer uma doação de R$ 500 mil ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante um bloqueio bancário na Operação Lava Jato, demonstrando uma histórica proximidade com figuras políticas e esferas de influência. A investigação prossegue buscando esclarecer todos os pontos e conexões dessa complexa trama que envolve corrupção e tráfico de influência.
Fonte: www.metropoles.com



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