Uma operação conjunta do Ministério Público e da Polícia Civil de São Paulo culminou na prisão de Deolane Bezerra nesta quinta-feira, desvendando uma complexa rede de lavagem de dinheiro. A investigação aponta que a influenciadora e advogada foi beneficiária de valores provenientes de uma empresa com nome fantasia “Lado a Lado Transportes”. Esta transportadora, estrategicamente localizada nas proximidades da Penitenciária II de Presidente Venceslau, onde a liderança da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) estava detida, é acusada de operar como fachada para a dissimulação de recursos ilícitos.
De acordo com os detalhes fornecidos pelo Ministério Público, a transportadora “Lado a Lado” funcionava em uma metáfora literal e geográfica: “lado a lado” com o estabelecimento prisional que abrigava os verdadeiros comandantes da organização criminosa. A empresa, sob escrutínio da justiça, movimentou impressionantes R$ 20 milhões. Notavelmente, uma discrepância de mais de R$ 6,9 milhões foi identificada entre suas despesas bancárias e as declarações fiscais, um montante que, segundo a investigação, caracterizava a saída de recursos com o objetivo explícito de ocultar valores de origem ilegal. A frota da transportadora, que teve um início modesto com sete caminhões e oito semirreboques, expandiu-se vertiginosamente para mais de 50 caminhões de grande porte, sem que seus titulares pudessem justificar a origem do capital que financiou tal crescimento.
As investigações do Ministério Público paulista foram categóricas ao identificar Deolane Bezerra como uma das beneficiárias dos valores oriundos dessa transportadora. Os recursos, conforme apurado, foram recebidos em um contexto de “acerto” e “fechamento” financeiro, e não como uma remuneração legítima por serviços advocatícios ou qualquer outra contraprestação legalmente reconhecida. O MP descreve Deolane com um perfil característico de integrante do núcleo financeiro da organização, destacando sua “elevada capacidade de movimentação econômica e projeção pública”, além de sua “estreita ligação com Everton de Souza”, que teria indicado suas contas para o recebimento de tais valores.
As empresas vinculadas a Deolane Bezerra, por sua vez, exibem características estruturais que as tornam veículos ideais para a lavagem de capitais. Elas apresentavam endereços fictícios em imóveis residenciais singelos, localizados em municípios do interior paulista como Santo Anastácio e Martinópolis, sem qualquer indício de atividade operacional em campo. Além disso, essas empresas compartilhavam os mesmos endereços com dezenas de outras pessoas jurídicas e o mesmo contador, que também prestava serviços às empresas de Everton de Souza, reforçando a suspeita de um esquema interligado.
A ostentação pública de um padrão de vida luxuoso, exaustivamente documentada por Deolane em suas redes sociais ao longo dos anos – incluindo viagens internacionais, veículos de luxo como Lamborghini Huracán e McLaren, e o uso de aeronaves –, foi um ponto crucial levantado pelo relatório da Polícia Civil. Essa exibição suntuosa é considerada “frontalmente incompatível com as informações fiscais conhecidas” da advogada e influenciadora, contribuindo significativamente para a conclusão investigativa de que seu patrimônio é, ao menos em parte, produto ou proveito da lavagem de capitais praticada em benefício da organização criminosa.
A prisão de Deolane Bezerra nesta quinta-feira (21) ocorreu no âmbito da Operação Policial Vérnix, deflagrada para combater a lavagem de dinheiro perpetrada pelo PCC. Além dela, mandados de prisão foram expedidos contra Marco Herbas Camacho, conhecido como Marcola, chefe do PCC já detido, e seu irmão, Alejandro Camacho, que cumpre pena em um presídio federal em Brasília. A investigação teve início em 2019, após a apreensão de bilhetes e manuscritos pela Polícia Penal na Penitenciária II de Presidente Venceslau, em posse de dois sentenciados, que desvendaram os primeiros elos dessa intrincada trama.
Fonte: BAND JORNALISMO