A produtora GR6, gigante do funk brasileiro, realizou um ambicioso evento de 12 horas, denominado “O Homem Tá Na Casa”, reunindo cerca de 100 artistas para a criação de mais de 200 músicas e 20 videoclipes. O evento, que se estendeu pela Zona Norte de São Paulo, não foi apenas uma demonstração da capacidade de produção em escala industrial do funk, mas também um gesto de solidariedade e reafirmação após a recente prisão de seu presidente, Rodrigo Oliveira, em decorrência da Operação Narco Fluxo.
A Operação Narco Fluxo investiga supostas ligações de artistas e empresários com lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, e Rodrigo Oliveira havia passado 28 dias detido. Sua foto estampava o convite do “camping”, um termo da indústria musical que designa encontros para produção intensiva. A presença de outros investigados, como Henrique Oliveira (Rato Love Funk) e MC Ryan SP, reforçava o caráter de “abraço coletivo” ao líder da empresa, sinalizando que a máquina do funk continuava a operar a pleno vapor, desafiando as adversidades.
A sede da GR6, uma casa ampla de três andares com dez estúdios fixos e um galpão para videoclipes, transformou salas de reunião e cabines de ligação em trinta espaços improvisados de gravação. O g1 acompanhou a movimentação no pico do evento, observando a dificuldade de transitar pelos corredores, tomados por artistas, produtores, curiosos e amigos. O elenco incluía nomes consagrados como MC Guimê, MC Rodolfinho e MC Livinho, além de artistas da nova geração como MC Tuto e MC Joãozinho VT, e muitos em busca de uma primeira oportunidade, incluindo talentos de outras produtoras, uma novidade nos campings da GR6.
O processo de criação musical durante o camping seguia um fluxo ágil e improvisado: produtores apresentavam batidas, MCs desenvolviam composições, gravavam suas vozes, e o beat era ajustado em tempo real, sem etapas elaboradas de masterização ou mixagem devido ao ritmo intenso. Dentro de cada estúdio, um representante da GR6 era responsável pelo marketing, catalogando as faixas prontas e realizando um filtro inicial para priorizar a divulgação. Um exemplo de sucesso de campings anteriores é a música “Mãe Solteira”, que se tornou um hit do Carnaval, mostrando a eficácia desse método acelerado de produção.
Apesar da “mágica” do improviso, que permitia colaborações espontâneas e o nascimento de novas músicas – como a participação de MC GW em uma faixa com sample de Daddy Yankee –, o volume de produção também gerava material descartado. A densidade de pessoas nos estúdios e corredores, com a constante entrada e saída de fãs e integrantes de equipe, tornava a gravação uma tarefa árdua, frequentemente interrompida. MC Menor da VG, com anos de experiência em campings, descreveu o evento como o mais lotado que já presenciou, ressaltando os desafios da criatividade em meio ao caos.
Ice Blue, dos Racionais MCs e conselheiro da GR6, observou a dicotomia entre a produção analógica, mais lenta, e a velocidade do funk. “Eu sou da escola do analógico, onde tudo leva muito mais tempo. A gente mal tinha estúdio para gravar. O funk sempre teve esse ponto single, de lançar várias músicas. Isso não tira o espaço do trabalho mais elaborado, do álbum. São escolas diferentes que se complementam”, comentou. MC Ryan SP, por sua vez, participou não como cantor, mas como empresário, acompanhando artistas de sua própria produtora, a Bololô Records, reforçando a dimensão empresarial e a rede de colaboração do cenário funk.
Apesar do ambiente efervescente de criação, o elefante na sala – a operação policial que havia impactado a empresa e seus artistas – permaneceu um “não assunto”. Artistas e curiosos evitaram o tema, como se houvesse uma obrigação tácita de manter a máquina do funk funcionando, custe o que custar. O camping da GR6, portanto, não foi apenas um evento de produção musical, mas uma poderosa declaração de resiliência e continuidade de um setor que se recusa a parar.
Fonte: Cultura e Arte – G1