Zélia Duncan dá um passo à frente em sua discografia com o lançamento de ‘Agudo Grave’, seu 15º álbum de estúdio em 45 anos de carreira. O trabalho, que compreende dez músicas autorais e uma regravação de Itamar Assumpção (1949 – 2003), é um mergulho em paradoxos e contradições, expressos na letra de “Maravilha disforme” com versos como “O belo que apavora” e “O sólido que escorre”. Este último verso, em parceria com Lenine, sintetiza perfeitamente a essência do álbum gravado entre setembro de 2025 e janeiro de 2026 no Estúdio do Tó, em São Paulo (SP).
A produção musical e os arranjos de Maria Beraldo são o cerne da salutar conexão que impulsiona ‘Agudo Grave’. Beraldo, conhecida por habitar o universo da invenção, (des)estrutura o cancioneiro de Zélia Duncan de forma a permitir uma evolução significativa sem descaracterizar a artista para os ouvintes de álbuns anteriores. Essa abordagem inovadora, orquestrada sob a direção artística da própria Zélia, lança uma nova luz sobre a obra da cantora, compositora e instrumentista fluminense, historicamente ancorada no folk e influenciada por nomes como Joni Mitchell.
‘Agudo Grave’ é, portanto, um álbum de fricção, e não de ruptura, como demonstram os violões introdutórios da faixa-título, parceria de Zélia com Lucina. A busca por essa ampliação de mundo se manifesta também nas colaborações, como com o baixista e compositor Alberto Continentino, parceiro em três das dez músicas autorais. Faixas como “Pontes no ar” (cantada com Continentino) e “E aí, IA?”, esta última com seu título engenhoso, evidenciam a inventividade dos arranjos de Beraldo e a capacidade de Zélia de explorar sonoridades jazzy e dissonâncias. A canção “Importante”, um samba encabulado com violão de João Camarero e cavaquinho de Rodrigo Campos, exemplifica o atrito harmonioso entre o passado da música brasileira e a contemporaneidade dos arranjos.
Contudo, apesar da riqueza e da inovação, o álbum apresenta alguns desequilíbrios entre melodia e letra em determinadas parcerias, o que, segundo a crítica, impede ‘Agudo Grave’ de se firmar como uma obra-prima. No entanto, momentos de pleno equilíbrio surgem em faixas como “Meu plano”, parceria com Ná Ozzetti, e “Calmo”, com Zeca Baleiro, que evocam um paraíso onírico e serenidade. Outro ponto alto é “Voz”, colaboração de Zélia com Maria Beraldo, onde as duas artistas cantam sobre uma cama sonora armada pelo violão de João Camarero, um dos momentos mais impactantes do disco.
O álbum navega por diferentes climas, desde a polaroide urbana de “Olhos de cimento”, com a guitarra rascante de Filipe Coimbra, até o reino dos afetos em “Resolvidinho”, parceria com Juliano Holanda. Zélia Duncan arremata ‘Agudo Grave’ com a única regravação do repertório, “Que tal o impossível?” (1988), de Itamar Assumpção. A escolha, extremamente pertinente, permite que Zélia cante Itamar com a transgressão inerente à obra do compositor, com um arranjo polifônico que destaca o piano inusual de Vitor Araújo. A conexão de Zélia com Maria Beraldo neste álbum, que se alimenta da contradição entre a obra da artista e a produção de Beraldo, faz com que ‘Agudo Grave’ irradie uma nova luz, evoluindo como um sólido que escorre, tal qual o verso de “Maravilha disforme”.
Fonte: Cultura e Arte – G1