O renomado grupo vocal Boca Livre está programado para lançar, nesta sexta-feira, 15 de maio, o álbum “Boca canta Edu”, um trabalho fonográfico dedicado à vasta e sofisticada obra de Edu Lobo. Com 11 faixas, o projeto, em tese sem grandes riscos, coleciona acertos e reafirma a conexão do quarteto carioca com o cancioneiro do compositor. A crítica observa, contudo, que a refinada técnica vocal do grupo, embora impecável, pode ter prevalecido em algumas faixas sobre a emoção intrínseca das composições, uma percepção subjetiva, mas pertinente à análise artística.
Desde a faixa de abertura, “Veneta” (Edu Lobo e Chico Buarque, 2001), o Boca Livre demonstra um desvio intencional da rota de “greatest hits”, opting por recriar este coco de embolada, oriundo da trilha sonora do musical “Cambaio”. A gravação realça a vivacidade rítmica do tema, com as vozes do grupo – inicialmente a capella – acompanhadas pelo pandeiro percutido por Zé Renato. A profunda conexão de David Tygel (voz e viola caipira), Lourenço Baeta (voz, violão e flauta), Mauricio Maestro (voz e baixo) e Zé Renato (voz, violão e pandeiro) com Edu Lobo, estabelecida há décadas, evidencia o discernimento e a coragem na seleção do repertório, composto por melodias sofisticadas e harmonias por vezes intrincadas.
A influência nordestina na obra de Edu Lobo, um compositor carioca de ascendência pernambucana, é explorada em faixas como o baião “Uma vez, um caso” (Edu Lobo e Cacaso, 1976), cuja narrativa trágica é suavizada pela interpretação do Boca Livre, enriquecida pelo violoncelo de Iura Ranevski. O grupo segue por essa estação em “Zanga zangada”, um frevo-canção em parceria com Ronaldo Bastos, originalmente apresentada pelo Quarteto em Cy em 1972. Já em “Viola fora de moda” (Edu Lobo e José Carlos Capinan, 1973), o Boca Livre harmoniza violões e violas, resgatando o som característico que o grupo formou no Rio de Janeiro em 1978, ano em que foi prontamente reconhecido pelo próprio Edu Lobo.
Essa conexão histórica é reforçada pela inclusão de “Sanha na mandinga” (Edu Lobo e Cacaso), parceria que Edu Lobo gravou com o grupo em seu álbum “Camaleão” de 1978, e que reaparece neste novo trabalho com um refinamento que atesta a coerência das trajetórias de ambos. O álbum, uma edição da gravadora Som Livre, também presta reverência a Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), uma das bases sólidas na construção da obra de Edu Lobo, visível no arranjo vocal de “Choro bandido” (Edu Lobo e Chico Buarque, 1985).
A coerência se estende às escolhas de participações especiais. O samba “Ave rara” (Edu Lobo e Aldir Blanc, 1993) promove o reencontro do Boca Livre com o MPB4, uma conexão iniciada há 45 anos. Já em “Corrida de jangada” (Edu Lobo e José Carlos Capinan, 1967), o grupo convida Vanessa Moreno, uma das cantoras contemporâneas preferidas de Edu Lobo, cuja voz é descrita como a “cereja do bolo” na gravação.
Mesmo em um dos temas mais amplamente conhecidos, “Arrastão” (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1965), eternizado pela grandiosidade épica do canto de Elis Regina, o Boca Livre opta por caminhos harmônicos distintos. A gravação harmoniza cordas orquestradas por Maurício Maestro, o piano jazzy de João Carlos Coutinho em uma breve passagem instrumental, e a voz discreta do próprio Edu Lobo. O álbum culmina com “Dos navegantes” (Edu Lobo e Paulo César Pinheiro, 1993), onde se percebe um maior equilíbrio entre técnica e emoção, e com “Candeias” (1967), uma das poucas composições em que Edu Lobo assina música e letra, fechando o trabalho com melancolia e nostalgia. A sedutora gravação de “Candeias” recupera a introdução original de Edu Lobo, muitas vezes suprimida em outras interpretações, e é embalada por cordas e um profundo sentimento nas vozes dos intérpretes, com a própria voz do autor a referendar este álbum que, sem erros, imprime a sofisticação de Edu Lobo na assinatura vocal do Boca Livre.
Fonte: Cultura e Arte – G1