O número de diagnósticos de câncer de garganta associado ao Papilomavírus Humano (HPV) tem alertado especialistas globalmente. Embora o HPV seja amplamente reconhecido por sua ligação com o câncer de colo do útero, ele também se manifesta como um tipo específico de tumor que afeta a garganta, as amígdalas e a base da língua, com incidência crescente e um perfil de paciente em transformação.
Dados recentes do Reino Unido revelam cerca de 2.000 novos casos de câncer de laringe por ano. Tradicionalmente, a maioria dos casos era registrada em homens acima dos 60 anos, com histórico de tabagismo e alcoolismo. No entanto, médicos têm observado uma preocupante mudança: o aumento de casos em homens mais jovens, sem o perfil clássico de longo histórico de tabagismo ou consumo excessivo de álcool, indicando novos fatores de risco.
A visibilidade para esse cenário foi ampliada em 2010, quando o renomado ator Michael Douglas revelou seu diagnóstico de carcinoma espinocelular oral em estágio IV. Três anos depois, ele confirmou que a doença estava relacionada ao HPV, descrevendo a impactante descoberta de um tumor “do tamanho de uma noz” na base de sua língua. Sua recuperação e abertura sobre o assunto foram cruciais para intensificar o debate público e a conscientização sobre a doença.
O papilomavírus humano é a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo, afetando praticamente todas as pessoas sexualmente ativas em algum momento da vida. Embora o organismo consiga eliminar o vírus espontaneamente na maioria dos casos, certas variantes de alto risco podem induzir alterações celulares que, ao longo de décadas, progridem para o desenvolvimento de câncer. A transmissão ocorre por contato íntimo, incluindo o sexo oral, uma via que tem sido cada vez mais associada ao câncer orofaríngeo.
O Dr. Tjoson Tjoa, especialista em cabeça e pescoço da UCI Health, destaca a mudança no panorama: “O que estamos vendo nos últimos cinco a dez anos é que o câncer de cabeça e pescoço mais comum é o câncer orofaríngeo relacionado ao HPV.” Esta observação contrasta com a crença anterior de que os principais candidatos ao câncer de garganta eram homens mais velhos com histórico de tabaco e álcool. Um estudo que abrangeu 1988 a 2004 já havia apontado um crescimento de três vezes nos casos entre homens mais jovens, reforçando a nova tendência.
Segundo o Dr. Tjoa, a maior frequência de práticas sexuais em regiões desenvolvidas do mundo pode ter contribuído para a disseminação do vírus. Ele enfatiza que, apesar das evidências crescentes, a conexão entre HPV e câncer de garganta ainda não é amplamente reconhecida pela população, o que dificulta a prevenção e o diagnóstico precoce. Pesquisas recentes corroboram essa preocupação, como um estudo norte-americano com mais de 500 participantes, que revelou que indivíduos com mais de 10 parceiros sexuais apresentaram um risco 4,3 vezes maior de desenvolver câncer de boca e garganta relacionado ao HPV.
Um dos aspectos mais alarmantes dessa patologia é o longo período de latência entre a infecção pelo vírus e o surgimento dos primeiros sintomas, que pode se estender por 20 a 30 anos. Enquanto muitos têm apenas uma infecção transitória, outros podem desenvolver alterações celulares que evoluem silenciosamente ao longo de décadas, tornando o monitoramento e a conscientização ainda mais críticos.
Os principais sinais e sintomas, segundo instituições de saúde, incluem espessamento na bochecha, caroços no lábio, boca, pescoço ou garganta, feridas na boca ou no lábio que não cicatrizam, e manchas vermelhas ou brancas na gengiva, língua, amígdalas ou revestimento da boca. Outros indicadores importantes são rouquidão ou mudança persistente na voz, uma sensação constante de algo preso na garganta, dormência na boca ou na língua, dor na mandíbula ou no ouvido, sangramento ou dor na boca, dificuldade para mastigar ou engolir, e mau hálito persistente.
Em casos menos comuns, fadiga e perda de peso involuntária podem ser observadas. A dor persistente no pescoço também é um sinal de alerta. Devido à natureza inespecífica de muitos desses sintomas, que podem ser confundidos com condições menos graves, o diagnóstico precoce depende de uma vigilância atenta e da busca por avaliação médica especializada ao notar qualquer alteração prolongada.
A vacina contra o HPV, introduzida nos Estados Unidos em 2006, é uma ferramenta preventiva poderosa. A recomendação é que crianças sejam imunizadas por volta dos 11 ou 12 anos, idealmente antes do início da vida sexual. Especialistas como o Dr. Tjoa defendem que a vacinação universal poderia erradicar completamente os casos de câncer relacionados ao vírus: “Se 100% dos meninos fossem vacinados antes de se tornarem sexualmente ativos, não teríamos essa doença.”
Embora as campanhas de vacinação tenham sido eficazes na redução do câncer de colo do útero em mulheres, os casos de câncer de amígdalas, garganta e base da língua associados ao HPV têm aumentado significativamente entre homens nas últimas três décadas. Esta disparidade se deve, em parte, ao foco inicial das campanhas na prevenção do câncer cervical, com a recomendação da imunização para meninos sendo ampliada mais tarde. O avanço do conhecimento sobre o HPV redefiniu a compreensão do câncer de garganta, que agora é visto não apenas como uma doença ligada ao tabaco e álcool, mas também a fatores virais e comportamentais com efeitos que podem emergir silenciosamente por décadas.
Fonte: CURIOSIDADES – Misterios do Mundo