A paixão pela ciência, muitas vezes, nasce de observações singelas, mas transformadoras. Para Ana Carolina Figueira, essa epifania ocorreu durante uma aula de química, quando um destilador caseiro, montado de forma simples e engenhosa, capturou sua atenção. “Aquilo me brilhou os olhos. Eu pensei: ‘Nossa, isso é muito legal’”, rememora a pesquisadora, destacando o momento que catalisou um despertar para o mundo da experimentação e do conhecimento científico.
Natural de Ourinhos, no interior paulista, Ana Carolina trilhou grande parte de sua formação em escolas públicas, onde as oportunidades de aulas práticas eram escassas. Recorda-se, por exemplo, de uma ocasião em que a turma dissecou frutas para identificar estruturas internas. Essas experiências, ainda que raras, alimentaram sua curiosidade inata. “Comecei a me perguntar se dava para estudar fazendo experimento. Na época, eu nem falava ‘ciência’, mas foi ali que começou”, explica.
No terceiro ano do ensino médio, a mudança para uma instituição de ensino particular precedeu os exames vestibulares. Ana Carolina foi aprovada em Medicina e Ciências Biológicas, optando pela segunda opção na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A escolha foi motivada pela percepção de que as Ciências Biológicas ofereciam um campo mais vasto para a pesquisa e para a elucidação das indagações que a inquietavam.
A constatação da correção de sua escolha não tardou a manifestar-se. Logo no primeiro ano da graduação, Ana Carolina obteve uma vaga em iniciação científica na área de bioquímica, dedicada ao estudo das moléculas essenciais ao funcionamento do organismo. Sua imersão no laboratório foi imediata e definitiva. Contudo, cerca de seis meses depois, uma paralisação das atividades universitárias impôs uma interrupção. Em vez de aguardar o fim da greve, a então estudante buscou alternativas, encontrando uma oportunidade no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, onde um grupo investigava proteínas – as macromoléculas responsáveis pela maior parte das funções celulares. Sem hesitar, ela se apresentou no laboratório, solicitando uma chance de estágio, que lhe foi concedida.
Essa transição marcou um novo paradigma em sua abordagem da biologia. Ana Carolina passou a explorar não apenas os efeitos das proteínas no organismo, mas aprofundou-se em sua estrutura interna, formato e como essa conformação tridimensional determina sua função. Para isso, recorreu a ferramentas da física, capazes de revelar a arquitetura dessas moléculas invisíveis a olho nu. Permaneceu nesse ambiente por dois anos e meio, com o apoio de uma bolsa da Fapesp, uma das mais prestigiadas agências de fomento à pesquisa no país. Durante esse período, consolidou sua vocação para a pesquisa, apreciando a rotina, o ambiente acadêmico e a incessante sensação de desvendar o novo.
Ao concluir a graduação, Ana Carolina tomou uma decisão audaciosa e, para a época, incomum, especialmente em sua área: ingressou diretamente no doutorado no Instituto de Física da USP São Carlos, sem cursar o mestrado. “Fui uma das primeiras mulheres da física a passar no doutorado direto naquela época”, relembra a cientista, sublinhando o caráter pioneiro de sua trajetória.
Durante o doutorado, seu foco de pesquisa recaiu sobre proteínas que atuam como receptores hormonais, como os de estrógeno e hormônios da tireoide. Esses receptores funcionam como sensores, detectando a presença de hormônios e, consequentemente, ativando ou desativando processos fisiológicos cruciais, como crescimento, metabolismo e produção de energia. A compreensão aprofundada do funcionamento dessas proteínas é crucial para elucidar patologias hormonais e subsidiar o desenvolvimento de terapias inovadoras.
Após a defesa de sua tese, Ana Carolina empreendeu um período de pós-doutorado nos Estados Unidos, no Hospital Metodista de Houston, em colaboração com a Universidade de Houston. Durante oito meses, dedicou-se a novos estudos, interagiu com outros grupos de pesquisa e absorveu diferentes metodologias científicas. No entanto, seu intento sempre foi retornar ao Brasil. Pouco tempo após seu regresso, obteve uma posição como pesquisadora no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, um dos principais polos científicos do país.
No CNPEM, Ana Carolina prosseguiu com o estudo das proteínas, aprofundando-se nos mesmos problemas que a fascinavam desde a iniciação científica. Contudo, com o tempo, sentiu a necessidade de transcender a análise molecular e abordar um nível de complexidade superior: as células inteiras, que representam as menores unidades vivas do corpo. Dentro delas, milhares de proteínas interagem simultaneamente em um ambiente intrincado. O avanço natural dessa linha de raciocínio a levou ao estudo dos tecidos, que são conjuntos organizados de células com funções específicas, como a pele ou o fígado.
Essa progressão culminou em um desafio ainda mais ambicioso: a tentativa de reproduzir, em laboratório, pequenas versões de órgãos humanos. A premissa era que, se fosse possível manter tecidos vivos fora do corpo, também seria viável conectá-los e observar suas interações. Esses sistemas são conhecidos como órgãos-em-chip. Apesar da nomenclatura, não se trata de um chip eletrônico, mas de um pequeno dispositivo transparente, do tamanho de uma lâmina de microscópio. Dentro dele, os pesquisadores cultivam células humanas organizadas de modo a emular o funcionamento de um órgão real.
Atualmente, Ana Carolina coordena um grupo de pesquisa dedicado ao desenvolvimento dessa tecnologia. O objetivo primordial é criar modelos que possam, ao menos em parte, substituir os testes realizados em animais. Ela ressalta que, embora os modelos animais tenham desempenhado um papel relevante na ciência, apresentam limitações significativas. “Os modelos animais, além das questões éticas, não são tão preditivos. Um animal não é um ser humano, existe uma diferença genética importante”, pontua a cientista. Isso implica que uma substância considerada segura em um camundongo, por exemplo, pode não apresentar o mesmo efeito em humanos, e vice-versa.
Em um dos modelos desenvolvidos pela equipe, os pesquisadores criaram uma pequena versão do fígado e a inseriram no dispositivo. Em outro compartimento, é possível cultivar pele. Esses compartimentos são interligados por canais microscópicos, por onde circula um líquido que mimetiza o sangue. Tal arranjo permite simular, em escala reduzida, o que ocorre no corpo humano. Se um produto é aplicado sobre a pele, por exemplo, os cientistas conseguem observar se ele atravessa essa barreira, entra na circulação e alcança o fígado, principal órgão responsável por processar substâncias químicas. Na prática, o sistema permite monitorar o percurso de uma substância e verificar se ela provoca danos às células, auxiliando na identificação de riscos antes que um produto seja testado em humanos.
A tecnologia dos órgãos-em-chip possui aplicações em diversas áreas, desde o desenvolvimento de novos medicamentos – para avaliar a toxicidade de um composto – até o teste de cosméticos e ingredientes alimentares. No Brasil, a proibição de testes de cosméticos em animais, por exemplo, intensifica a necessidade de métodos alternativos e inovadores.
O trabalho da equipe de Ana Carolina encontra-se em uma etapa crucial. Embora já tenham construído um protótipo funcional, é fundamental demonstrar a confiabilidade do método. Isso envolve um processo rigoroso de validação, no qual diferentes laboratórios replicam os experimentos para assegurar a consistência dos resultados. Somente após essa etapa a tecnologia poderá ser oficialmente reconhecida e adotada pela indústria.
Ana Carolina reconhece que este é um percurso longo, marcado por tentativas, erros e pequenos progressos acumulados. Contudo, é precisamente essa jornada que a impulsiona. “Eu costumo dizer que a gente vai juntando as pecinhas de um quebra-cabeça. Um dia você monta um pedaço, depois outro”, afirma. Sua própria trajetória reflete esse ritmo, embora também tenha enfrentado desafios. Ao ingressar no doutorado em física, notou rapidamente sua condição de exceção. “A maioria das pessoas era homem. Os professores também eram, em sua maioria, homens”, relembra. Apesar disso, ela crê em um cenário de transformação e que parte dessa mudança depende de dar visibilidade às mulheres que já atuam na ciência. Afinal, as referências não se limitam a livros ou prêmios; muitas vêm de perto: professoras, orientadoras e colegas.
Hoje, Ana Carolina Figueira também se tornou uma referência. Recentemente, foi uma das 25 cientistas laureadas na América Latina pelo Prêmio 25 Mulheres na Ciência, da 3M. A premiação reconhece mulheres que desenvolvem pesquisas de alta visibilidade, inovação e impacto social, com foco na indústria. Ela enxerga o reconhecimento como uma oportunidade para ampliar o alcance de sua pesquisa. “O principal é a visibilidade. Mostra que não é ficção científica, que dá para fazer”, afirma, e, sobretudo, que é possível realizar ciência de ponta no Brasil.
Para os jovens que ponderam uma carreira científica, seu conselho é a persistência. “Não tenha medo de aprender, não tenha medo de errar. Seja resiliente, não desista.” A cientista continua guiada pela mesma curiosidade que aflorou décadas atrás, diante daquele destilador improvisado. “Nem que seja para contribuir com um grãozinho de areia nessa praia toda, a gente está fazendo a nossa parte.”
Fonte: [CURIOSIDADES] SUPER INTERESSANTE



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