Em um movimento que pegou o mundo da música de surpresa, o rapper canadense Drake lançou três álbuns simultaneamente nesta sexta-feira (15), superando as expectativas dos fãs que aguardavam apenas o prometido disco “Iceman”. Além do trabalho já anunciado, que não tinha data de lançamento prévia, Drake entregou também os álbuns “Habibti” e “Maid of Honour”, totalizando 43 novas faixas em seu retorno à cena musical.
O álbum “Iceman” é o maior dos três, apresentando 18 músicas, enquanto “Habibti” e “Maid of Honour” contam com 14 faixas cada. A colaboração é um ponto forte nos novos projetos, com a presença de artistas renomados como Central Cee, 21 Savage e PARTYNEXTDOOR. Os discos exploram diferentes gêneros musicais, com “Iceman” focado no rap e hip-hop, “Habibti” mergulhando no R&B e “Maid of Honour” trazendo referências da dance-music, demonstrando a versatilidade do artista.
Este lançamento triplo é o primeiro trabalho de Drake desde a intensa e amplamente divulgada rixa com Kendrick Lamar em 2024. Não surpreendentemente, algumas letras dos novos álbuns parecem conter indiretas e alfinetadas ao seu rival. Em uma das faixas, por exemplo, Drake acusa Kendrick de instrumentalizar sua cidade natal, Compton, para atos de caridade enquanto desfruta de uma vida de celebridade em outro lugar.
A rivalidade entre Drake e Kendrick Lamar é uma das mais notórias da história recente do rap, caracterizada por uma série de ‘diss tracks’ ácidas e trocas de acusações que transformaram o ódio mútuo em um espetáculo público. A antiga rixa se intensificou dramaticamente no final de março de 2024, escalonando com faixas sendo produzidas e lançadas em poucas horas, num verdadeiro embate musical. Nos novos álbuns, Drake também direciona críticas a outros artistas que teriam se posicionado ao lado de Lamar durante o conflito.
Anos antes, a relação entre Drake e Kendrick era de colaboração. Ambos dividiram o microfone em faixas como “Buried Alive Interlude” (2011), “Poetic Justice” (2012) e “F**kin’ Problems” (2013). O conflito começou de forma sutil, com uma disputa sobre quem seria o melhor rapper da atualidade, uma competitividade natural que, gradualmente, se tornou mais pessoal do que profissional.
O ponto de virada inicial pode ser rastreado a 2013, quando o rapper Big Sean lançou “Control”, com a participação de Kendrick. Nesta faixa, Kendrick caçoou de Drake e outros rappers, citando seus nomes e declarando seu intento de superá-los. Enquanto outros artistas citados em “Control” revidaram com suas próprias diss tracks, Drake, ao ser questionado pela revista “Billboard”, limitou-se a descrever “Control” como ambiciosa, sugerindo que seu próprio nível de sucesso jamais seria ultrapassado por Kendrick.
Ainda em 2013, Drake lançou “The Language”, cujos versos – “Eu sou o único com quem você deve se preocupar/ eu não sei ao que você está se referindo/ quem é esse cara que você ouviu falar?” – foram interpretados por alguns como uma indireta a Kendrick, embora o produtor Birdman tenha negado. Curiosamente, “The Language” é uma faixa do disco “Nothing Was the Same”, um título que Kendrick usaria meses depois no BET Hip-Hop Awards, cantando: “Nada tem sido o mesmo desde que eles abandonaram ‘Control’ e puseram um rapper sensível de volta em suas roupas de pijama.”
A briga escalou em outubro de 2023 com “First Person Shooter”, uma parceria entre Drake e J. Cole, na qual J. Cole afirmou que ele, Drake e Kendrick formavam o “grande trio” do rap. Kendrick Lamar não gostou da afirmação e respondeu com veemência em “Like That”: “Filho da puta, os três grandes são somente eu”, irritado com a sugestão de igualdade. J. Cole, por sua vez, revidou com “7 Minute Drill” em 5 de abril, mas surpreendentemente retirou a música das plataformas de streaming dois dias depois, alegando que não condizia com seu espírito, embora o estrago já estivesse feito.
Drake, que até então estava contendo suas palavras, lançou “Push Ups” em 13 de abril, debochando da incursão de Kendrick no pop e afirmando: “Você não está em nenhum ‘trio grande’/ SZA te enxugou, Travis te enxugou, Savage te enxugou”. Seis dias depois, Drake lançou outro ataque, “Taylor Made Freestyle”, sugerindo que Kendrick havia atrasado sua resposta esperando o lançamento do álbum de Taylor Swift, “The Tortured Poets Department”.
A resposta mais contundente de Kendrick veio em 30 de abril com “Euphoria”, uma faixa de seis minutos onde ele despejou todo seu ressentimento, chamando Drake de “mestre manipulador” e “mentiroso habitual”, além de insinuar que ele seria um pai ausente e que fingia ser negro. A rivalidade atingiu seu ápice entre os dias 3 e 4 de maio de 2024, quando os dois rappers trocaram ataques com músicas lançadas em questão de horas. Em “6:16 in LA”, “Family Matters”, “Meet the Grahams” e “The Heart Part 6”, eles se dedicaram a tecer acusações graves e pessoais, incluindo pedofilia, violência contra a mulher e abandono paterno, acusações que ambos os artistas negam veementemente.
Os novos álbuns de Drake chegam em um momento crucial, servindo não apenas como um retorno musical, mas também como uma continuação e, possivelmente, uma nova fase desta complexa e explosiva rivalidade no cenário do hip-hop.
Fonte: Cultura e Arte – G1