A parada global do Spotify tem sido palco de um fenômeno notável e intrigante nas últimas semanas, com canções lançadas há mais de uma década superando os lançamentos recentes e dominando as posições de destaque. “Beauty and a Beat”, de Justin Bieber, e “Billie Jean”, de Michael Jackson, por exemplo, ocupam as primeiras posições da parada global, demonstrando um poder de permanência e redescoberta que desafia as dinâmicas usuais da indústria musical contemporânea. Este cenário evidencia o chamado “efeito catálogo”, onde músicas do passado ressurgem com força, disputando, e muitas vezes vencendo, a atenção do público contra as novidades.
O sucesso estrondoso de “Beauty and a Beat”, lançada por Justin Bieber, pode ser diretamente atribuído à sua recente aparição no Festival Coachella. Durante sua performance, o artista surpreendeu ao projetar clipes antigos em um telão e cantar ao vivo, como em um karaokê, uma “performance” que, embora tenha dividido opiniões, foi crucial para relembrar o público do impacto da canção. Desde então, a faixa não registrou menos de 35 milhões de reproduções semanais no Spotify, chegando a picos de 66 milhões em sete dias, solidificando sua posição no topo das paradas globais e confirmando a força duradoura do catálogo de Bieber, que, inclusive, foi vendido por US$ 200 milhões no final de 2022.
Similarmente, o legado de Michael Jackson, falecido em 2009, experimentou uma notável revitalização nas plataformas de streaming. A cinebiografia “Michael”, lançada em abril, provou ser um catalisador poderoso para o ressurgimento de seus clássicos. Com mais de cinco milhões de espectadores apenas no Brasil e uma bilheteria mundial de US$ 589 milhões, o filme impulsionou uma busca massiva pelas músicas do “Rei do Pop”. Após as exibições nos cinemas, o consumo de todo o seu catálogo cresceu exponencialmente, atendendo precisamente às expectativas dos administradores de seu espólio, que visavam a renovação do interesse nas obras atemporais do artista.
No caso de Katy Perry, a redescoberta de “The One That Got Away” (2010) seguiu um caminho mais orgânico e ditado pelas tendências culturais. A música não foi impulsionada por um evento de grande visibilidade, como o Coachella ou um blockbuster cinematográfico, mas sim por sua viralização no TikTok. Usuários da plataforma passaram a utilizá-la em “edits” românticos, criando uma corrente de engajamento que transformou a canção em uma trend global. Atenta a essa movimentação, Katy Perry lançou uma nova versão do videoclipe no YouTube e uma coletânea de sucessos intitulada “The Ones That Got The Play”, capitalizando sobre o momento e garantindo seu primeiro grande hit em anos, em contraste com o desempenho comercial discreto de seu último álbum, “143”.
Embora a “onda nostálgica” tenha um impacto significativo, o Top 10 global do Spotify ainda reserva espaço para lançamentos mais recentes de artistas como BTS, Dominic Fike, sombr, Olivia Rodrigo e Djo. Contudo, a ascensão dos hits antigos de Bieber, Jackson e Perry demonstra uma mudança no comportamento de consumo musical, onde a força do catálogo e a redescoberta cultural se tornam fatores preponderantes, levando artistas contemporâneos como Bruno Mars, Olivia Dean, Zara Larsson e Taylor Swift a perderem força diante dessa nova dinâmica.
Fonte: MUSICA – PORTAL POP LINE