Jorge Mário da Silva, amplamente conhecido como Seu Jorge, finalmente apresenta ao público seu mais recente trabalho, “The Other Side”, um álbum que emerge como o marco definitivo em sua discografia solo. Lançado hoje, 8 de maio de 2026, oito anos após a conclusão de suas gravações em dezembro de 2018, este projeto é saudado como o primeiro a alcançar a plena dimensão da voz grave e encorpada do aclamado intérprete.
A jornada solo de Seu Jorge, iniciada há 25 anos com o aclamado “Samba esporte fino”, foi marcada por altos e baixos, com discos que por vezes flertaram com a linha populista, como “América Brasil” (2007), que, embora tenha amplificado sua popularidade com hits como “Burguesinha” e “Mina do condomínio”, não refletia consistentemente a sofisticação artística que agora se manifesta em “The Other Side”. O novo álbum ressoa como um manifesto de resiliência, ecoando os versos iniciais de “Crença” (Milton Nascimento e Márcio Borges), onde Seu Jorge entoa sobre sua luta e solitude.
A grandiosa produção musical, orquestrada por Seu Jorge em parceria com Mario Caldato Jr., que já havia colaborado em “Samba esporte fino”, é o pilar deste trabalho. A maestria dos arranjos orquestrais de Miguel Atwood-Ferguson confere ao disco uma suntuosidade e um refinamento raros. A profusão de cordas e sopros que embalam faixas como “Vento de maio” (Telo Borges e Márcio Borges, 1979), que ganha uma abordagem majestosa em um “feat” com Maria Rita, exemplifica essa excelência, elevando a canção a novas atmosferas expansivas.
Contrariando a opulência orquestral, Seu Jorge também explora tons mais serenos e íntimos. Em “Girl you move me” (Frenchie Thompson, 1972), do repertório da banda canadense Cane and Able, o artista reverencia a bossa e o estilo decisivo de João Gilberto com um toque sutil de violão e canto. Essa leveza é reiterada na faixa seguinte, “Luz na escuridão”, um samba inédito de Cezar Mendes com letra de José Carlos Capinan, e também em “Flor de laranjeira” (2016), outra parceria de Mendes e Capinan que, sem ser estritamente bossa nova, reverberar a modernidade da revolução musical de 1958.
A diversidade do repertório se manifesta na pegada de “Caboclo” (Arthur Verocai e Vitor Martins, 1972), uma das sete músicas regravadas, que devolve suntuosidade ao álbum com uma ambiência rocker construída pela guitarra atmosférica de Michael Valeanu. O samba de cadência tradicional ganha destaque em “Folia de amor” (Mariana Bergel e William Pinto Magalhães), que mantém o refinamento característico do álbum. Outro samba, “Quando chego”, composto e interpretado por Jorge com Marisa Monte e Arnaldo Antunes, carrega o conhecido ar tribalista entranhado na obra da cantora.
O lado mais introspectivo e calmo do álbum é evidenciado em “Far from the sea”, regravação de uma música de Robertinho Brant e Emerson Penha lançada por Bebel Gilberto em 2009, que navega em calmaria com vocais adicionais do quarteto belga Zap Mama. Esse leito sereno se aprofunda em “River man” (1969), de Nick Drake, interpretada por Seu Jorge em um belo encontro de vozes graves com o cantor britânico Beck. O álbum se encerra com a inebriante “Beleza bárbara” (Leo Tomasini e Joey Altruda), um samba-canção bafejado pelos sopros do sax do próprio Jorge e o clarinete de Pedro Dom, consolidando a ponte entre a leveza do balanço da bossa e a suntuosidade dos arranjos orquestrais de Miguel Atwood-Ferguson.
Em síntese, “The Other Side” é, sem dúvida, o melhor álbum da carreira solo de Seu Jorge, uma obra que harmoniza com maestria o canto, o repertório cuidadosamente selecionado e os arranjos de alta qualidade. A espera de 17 anos desde sua idealização em 2009 até o lançamento neste mês de maio de 2026 demonstra que valeu a pena para entregar um trabalho de tão primoroso acabamento.
Fonte: Cultura e Arte – G1